Santa Carona

A fórmula de Bird Box

Quando contamos uma história há no ato narrativo a intencionalidade do porquê contar aquela história. Pode estar vinculada a simplesmente passar uma informação; também pode ser para deixar alguém informado sobre um fato ocorrido; pode ser uma história carregada de alguma reflexão, um questionamento e a produção de uma catarse; e também pode ser concebida com a intenção de provocar e aflorar algum tipo de sentimento. É uma condição comum em nossos amigos que nos contam sobre situações cotidianas ou querem nos informar com pormenores de algum evento do dia até uma elaborada obra literária ou cinematográfica. Em tudo isso encontramos alguma intenção, uma vontade a ser expressa por quem transmite a história.

Poderíamos pegar uma fábula como A tartaruga e a lebre, ou um filme com conteúdo histórico como o recente Outlaw King e com eles veríamos que uma história nos informa que “devagar se vai ao longe” ou que é importante persistir e não parar; a outra conta a história da campanha de Robert the Bruce para tomar a coroa da Escócia. Mas ambas as histórias têm os seus componentes completos expostos. A curta fábula não precisa de mais do que foi mostrado para que se chega à moral final e o filme também guia o espectador para os seus temas de forma prática.

Em um caso incomum temos o exemplo do escritor americano H. P. Lovecraft, que em seus contos sobre terror cósmico, trabalhava a noção de insanidade que certas criaturas ancestrais e maléficas causavam nos seres humanos que, por azar ou curiosidade, cruzavam o caminho desse mal ancestral. Nos contos de Lovecraft uma coisa chama atenção: a pouca descrição que eram feitas das cenas e das criaturas pelas quais deveriam ter medo, aquelas mesmas que causavam todo o horror. A principal fonte do medo, da loucura e do horror eram as poucas informações e todo o conjunto de efeitos aterrorizantes que cada entidade poderia causar. Ter um vislumbre de uma das entidades e de todo mal que estão representados nela, é ser levado às montanhas da loucura por estar incapacitado de responder a tamanha monstruosidade. Nas narrativas de Lovecraft a tensão, aflição e medo são gerados pelos sentimentos que a imaginação do leitor causa, pelo que ele está transformando toda aquela informação que possui poucos sussurros nas trevas como elemento formal, mas que cabem à imaginação do leitor dar a forma final. E nesse tipo de situação que encontramos a “fórmula” do Bird Box.

O filme é a adaptação do livro homônimo escrito por Josh Malerman publicado em 2014. Os direitos para realização de um filme foram adquiridos primeiro pela Universal Studios e posteriormente pela Netflix. Foi dirigido por Susanne Bier lançado na plataforma em 21 de dezembro de 2018. Desde essa data a internet pulula das mais variadas interpretações sobre o filme.

Capa do livro e poster do filme.

Em resumo, a sinopse é a seguinte. Repentinamente o mundo é tomado por uma onda de pessoas que de maneira súbita, aparentemente após ver alguma coisa, começam a se matar. Isso cria um caos generalizado e vai se espalhando pelo mundo. Ao chegar na localidade onde a história se passa, um grupo de pessoas se juntam e começam a dividir uma casa e vão descobrindo que não podem ficar olhando livremente fora de um local isolado e que ver as “criaturas” é motivo para morrer. Entre os refugiados está Mallorie, que no início de todo o pandemônio estava gravida. Ela tem seu filho e passa a cuidar da filha de outra mulher que acabou morrendo. Mallorie se juntará a Tom, que também se escondeu na mesma casa e sobreviveu à tentativa de “revelação” das criaturas. Ambos criarão as crianças e ao fim receberão um contato via rádio para seguirem o curso de um rio para um lugar seguro das criaturas.

Pois bem, o principal aqui é a pouca informação que o desenvolver do filme dá sobre tudo que está acontecendo. As criaturas somente apareceram, ninguém sabe quem são ou de onde vieram e qual o motivo de sua aparição. O mais próximo é alguma noção de “fim dos tempos” que um dos personagens acaba soltando, mas que nenhum outro compra a ideia. O final também não aponta nenhuma direção para nada e tudo termina verde e ao som de pássaros, mas a pergunta é: que diabos aconteceu?

A maneira como o filme é montado, com toda uma estrutura que envolve a forma da fotografia e trilha sonora, gera uma sensação de proximidade de algo, apreensão constante, vigilância e suspense que colaboram para formar a situação proposta. Tudo acaba colaborando para criar a sensação de participação naquilo que está a se desenvolver, o que acaba por ser elemento importante equação pouca informação, imaginação e sugestão de proximidade com aquilo que está passando, o que cria a fórmula. Outra tática da construção do filme, que ajuda a manter as questões básicas da narrativa visíveis, é a fluidez da narrativa. Sem ficar preocupada com a introdução e explicação com minucias e pormenores dos personagens, apenas deixa que a história siga o curso junto daqueles que são principais.

Aqui vou apontar a referência mencionada acima, da forma como Lovecraft contava suas histórias. A forma de narrativa é a mesma: informar pouco, apenas que as pessoas que olham para os monstros acabam sendo levadas a se matar (ou de adorar aquelas criaturas). O terror é gerado apenas pela possibilidade de ver, mas ver o quê? Qual é a sensação causada que leva a pessoa para a morte? O que elas veem? Pois é, assim como nas histórias de Lovecraft, quase nada sabemos. Pelo desenrolar do filme as pessoas são tentadas a se aproximar das criaturas e por fim enxergam algo familiar, mas extremamente nocivo. Aqui a intenção é causar uma tensão em quem assiste justamente por não saber e ficar imaginando o que está criando essas possibilidades de morte. A intenção é lidar com as sensações e sentimentos.

A fórmula que temos é simples: falar o mínimo necessário para a história ter sustentação e para que a própria imaginação de quem assiste elabore as versões/interpretações sobre o que se passa, ou o que o filme pode comunicar. Essa é a formula do sucesso: deixar que todos fiquem livres e desimpedidos para criar teorias sem que não haja uma pauta final.

Por isso temos tantas interpretações. O filme está formado justamente a partir dessa perspectiva: deixar com que cada um imagine aquilo que lhe causa tanto mal-estar que pode levar até à morte. Portanto, é lícito que venham a falar de demônios que dominam matando uns e outros sendo transformados em seus agentes de destruição. Ou que alguns acabem por dizer que se trata de depressão ou alguma outra condição psicológica grave. A relação entre os personagens também amplia para a relação entre mãe e os filhos, a família e a vida sob certas condições de dificuldades. Tudo isso é possível de ser abordado, com ou sem forçar a barra, justamente por ser algo aberto, não há um direcionamento da narrativa para uma reflexão além de que: a reflexão pelo filme é sua, da mesma foram que os monstros são seus.

A nível de curiosidade, a semelhança com o universo lovecraftiano não é gratuita. Há um momento que um dos personagens espalha desenhos sobre a mesa que remetem claramente aos Mitos de Cthulhu, além do fato das mortes serem efeito de uma loucura repentina que invade aqueles que olham para a fonte do mal. Temos também um grupo de cultistas que vivem para tentar trazer ao mundo aquela realidade povoada pelo mal que emana dos Great Old Ones.  O que nos mostra que a intenção dessa narrativa é justamente explorar o psicológico e como a mente formula as condições de dificuldades e de terror propostas.

Os desenhos.

Ao fim, o que acontece com Bird Box pode ser comparado a uma projeção: a interpretação é feita segundo alguma coisa que lhe é mais cara, mais latente sua vida; ou então segue uma temática específica para procurar um nicho de espectadores. Bird Box é uma folha em branco que aceita bem sua reflexão, independente do seu ponto de vista.

Ademais, é um bom filme, uma boa história, com bons momentos de suspense. Vale assistir. Mas a reflexão é por sua conta…


[Esse texto também está no Medium. Se você usa o app, segue lá também https://medium.com/@tobiasgoulao/a-f%C3%B3rmula-de-bird-box-1f22777f1882]

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.