Santa Carona

João e a flauta

João era uma criança sábia, gostava de tocar flautas junto aos passarinhos e ouvir a doce canção da cachoeira que ficava próximo do vilarejo. O vilarejo era pequeno, possuía algumas casinhas e era cercado por uma floresta, exceto por um dos lados, onde corria o rio. À beira do rio possuiu um pequeno porto, ali chegavam barquinhos de moradores do vilarejo, comerciantes e visitantes.

Próximo à vila havia uma cachoeira, como já foi dito, João adorava o som de lá. A cachoeira formava uma pequena piscina natural, depois seu leito afinava e desaguava no rio. As crianças do vilarejo frequentavam a cachoeira, corriam ao redor do poço formado pela água, se banhavam, escalavam o paredão da cachoeira. Os rapazes se aventuravam nos cipós e como Tarzan pulavam na água. Mas os adultos não, estes nunca tinham tempo.

Na floresta apenas os caçadores entravam, iam com arcos e armadilhas, vez por outra voltavam machucados, e sempre traziam animais que eram divididos para os moradores. As botas sempre voltavam sujas. Mas as crianças não ousavam entrar na floresta. Os pais também não permitiam. Alguns pais sempre contavam histórias do que acontecia na mata para que os filhos não se aventurassem.

Os pais de João, eram um desses que contavam e recontavam aventuras dos caçadores na floresta. João gostava muito de ouvir, entretanto não sentia medo da floresta, pois não tinha nenhuma vontade de entrar nela. O pai de João sempre depois de contar uma das lendas torcia o bigode e ia até a janela, olhava ao redor como se tivesse pressentimento de que alguma das criaturas descritas estivesse por perto.

Um dia comum, João saiu a tocar a sua flauta, seus amigos passarinhos se reuniram para participar do concerto foram até à cachoeira, que no horário não tinha frequentadores. João tinha tamanha habilidade que os canarinhos se admiravam do som produzido por sua flauta.

Por um momento, pararam a música, exceto a cachoeira que continuava o seu concerto. João começou a escalar o paredão da cachoeira, quando, por um descuido, sua flauta caiu. Ele se assustou, mas suspirou aliviado quando viu que ela não tinha caído na água, mas entre algumas árvores e plantas.

Os passarinhos ao verem a cena se assustaram, mas decidiram ir embora quando João desceu e foi caminhando em direção a flauta, que estava num pedaço da floresta.

João caminhava despreocupado, mas só depois de passar algumas árvores lembrou da advertência de seus pais:

-Não entre na floresta!

Com certo remorso o garoto apertou o passo, para findar logo aquela experiência. Quando avistou a flauta, correu um pouco mais. Abaixou – se e pegou a flauta, virou-se para sair e deu de cara com um senhor. Na verdade não era um senhor comum. Este era um pouco curvado e bem magro. Seu nariz era pontudo, seus olhos escuros. Trazia uma bolsa de couro, atravessada ao corpo.

O velho sorrindo lhe disse:

-Bom dia meu jovem! 
João assustado, respondeu apressadamente:

-Bom dia!

O velho deu uma risada e tirou uma maçã de dentro da bolsa. João se refazendo do susto interrogou:

-Quem é você? De onde vem? O que faz aqui?

O velho, deixando de olhar para a maçã, olhou para o menino e disse:

-Eu sou um dos guardiões dessa floresta, como você fez barulho, vim ver o que era.

-Guardião? -exclamou João.

-Sim, somos três. Hesh protege os animais, Graude a terra e eu as árvores e plantas. Respondeu o guardião.

-Mas qual seu nome? Estes outros são seus irmãos? Inquiriu o garoto. 
-Meu nome é Fesh. E eles não são meus irmãos, somos amigos e servimos ao grande guardião. Informou o mago.

-Ah sim! Suspirou o jovem. O grande guardião protege tudo?

-Sim! Confirmou Fesh.

João não tinham mais medo, estava a vontade, mas lembrou – se que não podia estar a li. Como quem está com pressa, falou:

-Prazer em conhece-lo Fesh, mas preciso ir! Adeus!

João deixou Fesh, para trás, tencionava sair sem esperar a resposta do guardião. Mas este lhe puxou o braço e disse:

-Você pegou este objeto atrás daquelas plantas, certo? Apontando para a flauta.

-Sim. Disse João. É minha flauta.

-Então você precisa devolve-la no lugar para poder sair da floresta. Propôs Fesh.

-Não, isso não! Respondeu João. Ela é minha, eu a deixei cair aqui.

O guardião neste momento parou de sorrir, franziu a testa e disse em tom severo:

-Deixe isso aqui!

João, olhou o mago com medo e disse:

-Por favor! É tudo que tenho! 
Comovido o guardião, coçou a cabeça e desfez a cara de bravo.

Como que tendo uma ideia, exclamou:

-Então vamos ter que fazer um trato. Você poderá sair da floresta com isso aí, só se dizer como Hesh convenceu você a vir me assustar?

-Isso aqui é uma flauta. Explicou João. E eu nem conheço Hesh, nem sabia que vocês existiam.

O mago coçou a cabeça e se virou.

-Eu jurava que era mais uma peça do Hesh, aquele trapalhão. Murmurou.

Voltando – se novamente para o garoto disse:

-O que essa flauta faz?

-Eu sopro por aqui e ela produz o som que eu quiser! Respondeu maliciosamente o menino.

João planejava enganar o guardião, causando-lhe medo, para que este o libertasse.

-Oh céus! Isto é impossível! Apenas os pássaros e as cachoeiras fazem músicas, a… também as árvores quando venta e o próprio vento.

-Pois eu sou o senhor da música!

Disse com voz imponente João.

-Então prove! Exigiu o mago!

João tentou negociar:

-Só se me deixar sair.

O mago achou justo, afinal um guardião, não podia punir um mestre.

-Feito! Respondeu Fesh.

João começou uma música muito alegre, de maneira que o velho começou a entrar na dança. Fesh que só conhecia os sons naturais, já enumerados por ele, realmente acreditou estar diante de um mestre da música.

João terminou a canção sorrindo, e indagou o guardião:

-Acreditas agora?

Fesh maravilhado respondeu:

-Sim! É magnífico!

E completou envergonhado:

-Desculpe – me senhor mestre da música! Eu não queria desrespeita – lo.

-Não tem problemas Fesh. Disse o garoto!

-Eu achei que os mestres não desciam para nos visitar. Murmurou o velho.

-Mas preciso ir! Completou.

-É uma pena, gostaria que Hesh e Graude também conhecessem o senhor! Disse Fesh admirado.

O garoto gentilmente disse:

-Eu adoraria conhece-los, mas hoje o privilégio foi seu! Outro dia volto para encontrar vocês três.

-Ótimo! Respondeu Fesh.

João disse:

-Preciso ir, adeus!

-Adeus! Respondeu o velho.

João saiu correndo pelo caminho que entrara na floresta. Pensava várias coisas, mas não sabia o que tinha acontecido. Até que chegou a cachoeira, ofegante encostou nas pedras que formavam o paredão. Olhou para a flauta e para a floresta e começou a rir!

Observou que algumas crianças vinham correndo para a cachoeira, uma delas viu João e gritou:

-Olha é o João da flauta!

As crianças gritaram muito de alegria, João sorriu por associar a fala do garoto à aventura que acabara de viver. Suspirou baixinho:

-De fato sou João da flauta, o mestre da música!

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!