Santa Carona

Resistência e Coragem

Conforme a tradição da Igreja, os cristãos são retratados como milites Christi, ou seja, soldados de  Cristo, que lutam para estar ao lado Dele. Muitos tem a tendência de ter uma visão pessimista da palavra “lutar”, mas o correto é  usar essa palavra no sentido  de que devemos atender a um pedido de Cristo, de lutar contra as más inclinações pessoais e ao mesmo tempo ser soldados que levam a serenidade aos outros.

“Nada mais alheio à fé cristã do que o fanatismo que acompanha os estranhos conúbios entre o profano e o espiritual, seja de que sinal forem. Esse perigo não existe, se entendemos a luta tal como Cristo no-la ensinou: como a guerra de cada um consigo mesmo, como esforço sempre renovado de amar mais a Deus, de desterrar o egoísmo, de servir a todos os homens.”. (Homilia: A luta interior, São Josemaria Escrivá).

A guerra que um cristão passa é incessante, pois as dificuldades encontradas no caminho são inevitáveis. Isso tem uma consequência interessante: ajuda a impedir de orgulhosamente nos imaginarmos perfeitos. Há realidades de batalhas que são espirituais e outras que são humanas e é importante saber como lidar com cada uma. Em II Timóteo capítulo 2,versículo 3 nos diz para suportamos as dificuldades como um bom soldado de Cristo Jesus. A guerra na vida cristã em nada se compara com uma guerra humana, como já vimos acontecer várias vezes no decorrer da história, pois esta se inspira no ódio e na divisão, e a guerra na vida de um cristão é contra seu próprio egoísmo, levando à unidade. Mas podemos fazer uma comparação em um outro sentido.

Quem me conhece de perto sabe que tenho um gosto peculiar com relação a filmes, diferente da maioria das mulheres. Eu particularmente tenho uma preferência maior por filmes de guerra do que os de romance. São poucos os filmes de romance que conquistaram meu coração, pois estes retrataram como realmente deve ser um relacionamento cristão. Mas a maioria dos filmes de guerra me tocaram profundamente, e tem duas razões para isso. A primeira é que em um filme de guerra (dependendo do filme, claro) é possível ter uma visão da vida espiritual, mesmo se tratando ali de uma guerra humana. Durante a nossa vida, precisamos encarar o medo, as frustrações, e aprender a ter forças para ficar de pé, pois há algumas batalhas que são mais complicadas que outras e demoram a passar. Ao assistir filmes de guerra tendo essa visão espiritual, tiramos grandes lições, como esta: Mesmo que estejamos aos farrapos, completamente surrados, se estivermos com Deus, conseguimos amar e ajudar ao próximo, renunciando a si mesmo para atender a um desejo do Pai. Essa foi uma das lições que aprendi do filme “Até o último homem”.

Na maioria dos filmes de guerra, tem o soldado bruto, insensível com todos e que acha que pode ser melhor que todo mundo. Tem o soldado que não para de beber ou fumar um segundo sequer, tem o que não se importa com nada e tá sempre arrumando uma forma de fazer uma piada com alguma situação, há o soldado talentoso, o que é bom e medroso,  e o que é bom e corajoso, geralmente esses dois últimos são religiosos. Enfim, são várias características, destaquei algumas principais. Antes de irem para uma batalha, passam por um treinamento, breve ou não dependendo da situação, depois a maioria é encaminhada para as trincheiras. A vontade de ficar parado nas trincheiras é grande, pois há o medo de encarar o inimigo. Muitas vezes acontece isso na nossa vida, o cerco parece que se fecha de tal modo que sentimos vontade de esconder. Porém, não é assim que se vence uma batalha, pois quanto mais tempo se esconder, mais o inimigo avança e ataca. Chega um momento em que é necessário sair das trincheiras e encarar o inimigo espiritual, tentar derrota-lo com todas as forças, se quisermos avançar nas virtudes.

É importante identificarmos qual tipo de soldado estamos sendo: o bruto que atropela todo mundo, inclusive seus amigos, ou o medroso, ou oque confia, ou aquele que não está nem ai, ou então o que procura a coragem se enfiando nos vícios? Cada um acaba passando por situações pessoais bem diferentes, conforme for seu comportamento. Cada um acaba adquirindo um modo diferente de encarar uma guerra, seja antes, durante ou depois dela.  Vamos observar e tentar refletir qual tipo de soldado estamos sendo. Não podemos deixar a virilidade e a prudência desaparecerem em meio às dificuldades atuais.

Outra razão no qual filmes de guerra me chamam a atenção, é pelo fato de fazer refletir até aonde o ser humano é capaz de chegar quando se há a ausência de Deus em seu coração. Ele é capaz de cometer atrocidades em busca do poder, em uma tentativa de satisfazer sua ganancia e egoísmo. Ele se torna cego e seu coração endurece. É capaz de provocar o sofrimento em massa para satisfazer seus desejos. Estes períodos de guerra, com certeza feriram profundamente o coração de Cristo, pois muitos de seus filhos, inocentes inclusive, foram mortos ou violentados brutalmente. Não vale a pena uma nação se distanciar de Cristo. Esses filmes nos fazem pensar sobre o que estamos fazendo para que as pessoas tenham um encontro com Deus e encontrem a Verdade que tanto procuram.

Quando assistimos a esses filmes, sentimos tristeza não só pelo o que aconteceu, mas também pelo o que acontece agora. Não estamos em guerra igual em guerras anteriores, não temos bombas caindo em nossas cabeças como acontece em vários países atualmente, mas mesmo assim parece que estamos acuados, com medo. A era em que vivemos transformou os seres humanos em seres medrosos. Hoje daria para fazer tanto, mesmo existindo alguns conflitos ideológicos. Já notou que quando fracassamos e ficamos escondidos em trincheiras nas nossas batalhas espirituais, as batalhas externas fracassam também? É um trabalho em conjunto. Trabalhamos e crescemos o nosso ser e consequentemente ajudamos o próximo a crescer também.

É importante ter muita cautela ao passarmos por situações de luta e trégua. Ao adotarmos a postura de cristãos que lutam para estar ao lado de Cristo, é importante ter algo muito valioso: a Temperança. Ela traz o devido equilíbrio para diversas situações, e não nos deixa cair no orgulho e nos fanatismos, seja para o lado dos impetuosos da religião, que acham que são mais sábios que os Santos Padres, e os que são fanáticos pela mundanidade dentro da Igreja. Tudo deve ser feito com prudência e coragem. Tudo com o devido equilíbrio! Um soldado que não consegue manter o equilíbrio de si mesmo na guerra, ele logo se desespera e acaba fazendo o que jamais deveria ter feito.

Nada nos impede de ir em busca deste equilíbrio. Podemos e devemos pedir o auxilio de um diretor espiritual, e saber utilizar bem as “armas” que Deus nos coloca à disposição, para enfrentarmos as lutas que temos durante a vida. Temos a nosso dispor: a oração, a mortificação (que é também oração, mas oração dos sentidos) e a frequência dos Sacramentos, que é uma maravilhosa manifestação da misericórdia de Deus. Jesus disse: O reino dos céus se alcança à força e são os violentos que o arrebentam. Isso não quer dizer uma violência contra o outro, mas sim fortaleza para combater as próprias misérias, audácia para confessar a fé, mesmo em ambiente adverso, pois Deus está sempre do lado daqueles que o temem.

“Com quanta claridade e com que formosura! que majestade! quão vitorioso e alegre! Como quem se saiu tão bem da batalha onde ganhou um tão grande reino, o qual quer todo para vós e a Si mesmo com ele. Será, pois, muito que, a quem tanto vos dá, volvais uma vez os olhos a fitá-lO?”. Santa Teresa D’Ávila.

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.