Santa Carona

São Basílio e a Literatura

            No cristianismo, muitas vezes as pessoas ficam confusas com alguns temas. É perfeitamente normal, e é por isso que há pastores que Deus colocou exatamente para guiar esse rebanho em meio à confusão. O que eu me pergunto é porque há confusões sendo feitas quando questões afins já foram resolvidas.

            Em meados dos anos 350 da era cristã, viveu em Cesárea um virtuoso homem de nome Basílio, bispo, ou seja, pastor desse rebanho que muitas vezes se confunde. Enquanto ele cuidava do seu rebanho, surgiu um grupo de jovens dizendo que a literatura da época era pagã, que não podia ser lida por autênticos cristãos, pois era coisa pecaminosa.

            Ora, pensemos um pouco no que era literatura naquela época. Estamos falando da civilização romana, os clássicos lidos eram as grandes tragédias dos heróis gregos, tais como as obras de Homero, Hesíodo, Sófocles e outros. Enfim, trata-se daquilo que hoje chamamos de mitologia grega. Como um católico veria algo de mal nisso?

            Bom, é uma época em que ainda existem muitos pagãos. O próprio Santo Agostinho comenta em suas Confissões que adoradores do paganismo compravam, em Roma, estatuetas de Isis com seu filho Hórus ao colo ou ainda adoravam a Anúbis, “o deus que ladra”. Sendo assim, ler as histórias dos deuses era um risco, pois os textos homéricos ainda tinham caráter religioso.

            Em segundo lugar, a mitologia grega é o que podemos chamar de “extremamente sensual”. Sem dúvidas há muito erotismo nas histórias gregas. Hades rapta Perséfone para desposá-la: alguém tem dúvidas de que foi um sequestro seguido de estrupo? Afrodite deita-se diversas vezes com Ares, traindo seu marido Hefesto. As festas de Dionísio incluíam bebedeira e orgia. E não preciso falar do pai de todos, Zeus. O infeliz não só traiu sua esposa, Hera, diversas vezes, tendo dezenas de filhos, deuses e semideuses pelo mundo, como foi verdadeiro estuprador: ele fez-se cisne para surpreender a rainha Leda e chuva de ouro para engravidar a princesa Dânae. O senhor do Olimpo é o verdadeiro Mr. Catra da antiguidade.

            Então, ao que parece, esses cristãos zelosos, cheio dos “pode e não pode”, estavam até que aparentemente certos. Foi nesse momento que o santo decidiu intervir. São Basílio Magno escreveu uma carta, destinada à juventude, falando da utilidade da literatura pagã.

            Para o santo bispo, Literatura é algo que trata de beleza, e o que mostra o belo forma o caráter. Diz o santo: “Devemos ocuparmo-nos da leitura dos poetas, dos oradores, de todos os escritores que podem nos servir para aperfeiçoar nossa alma. Se quisermos imprimir em nós a ideia de beleza com força suficiente para que seja indelével, devemos nos iniciar nas letras profanas, antes de se empenhar no estudo das coisas sagradas”. São Basílio concebeu a ideia de Dostoievski de que a beleza salvará o mundo muitos séculos antes de que ele a escrevesse em O Idiota. Para São Basílio, a virtude não está no seguir uma lista rigorosa de proibições e instruções, para ele a virtude é simplesmente ter bom gosto. Basílio não está longe dos pensamentos de Aristóteles e de Tomás de Aquino.

            São Basílio sabia de tudo que os jovens acusavam a literatura, mas ele via mais do que vício, ele via o modelo dos heróis que tentavam fazer o certo ainda que os deuses fossem extremamente mesquinhos. Basílio via com bons olhos a fidelidade de Ulisses tentando voltar para sua amada; ele gostava da postura penitente de Héracles em busca de redenção; ele admirava até mesmo a tragédia de Narciso, pois sabia que o orgulhoso afundava tal qual. Por isso escreveu: “Devemos estudar os autores profanos que louvam a virtude e condenam o vício”.

            Mesmo que a poética aristotélica estivesse perdida, Basílio, bem como Agostinho, sabia do valor de um texto esteticamente belo. Basílio sabia do valor das letras e que aquilo seria extremamente útil para qualquer pessoa de bom gosto, quer dizer, virtuosa: “a literatura profana nos ajuda a traçar o primeiro esboço da virtude”. O pastor sabia ver esse bom gosto nos autores pagãos, que mesmo desviados por sua cultura, produziram algo que pudesse ser aproveitado. “Quase todos que escreveram sobre a sabedoria louvaram a virtude, cada um à sua maneira”. Em sua carta recomendou que se lesse literatura, aproveitando o que é bom e ignorando o que é mau.

            Eu fico pensando como São Basílio Magno deve ter exultado na eternidade ao ver a sua amada literatura tomar um viés cristão. Como ele deve ter se alegrado ao ver os vícios condenados sumirem e ficarem apenas uma literatura cristão, com beleza estética e o ensino de virtudes. São Basílio deve ter batido palmas para Dante Alighieri, Geoffrey Chaucer, Miguel de Cervantes, William Shakeaspare, Victor Hugo, Luís de Camões e tantos outros.

            Acontece que passados alguns séculos, a sociedade ocidental se vê em um contexto neo-pagão, como afirma o papa emérito Bento XVI, grande admirador de São Basílio Magno. Voltou-se a pregar o vício e as ideologias e isso teria entristecido São Basílio, se ele não estivesse na eterna bem-aventurança.

            Mas como estaria o patriarca em relação a sua literatura? O romantismo iniciado por Goethe a pesou de sentimentalismo, o realismo de Flaubert a tornou racionalista, pessimista e anticlerical – sua Bovary e uma adúltera! Depois disso o positivismo tomou conta do simbolismo e a literatura moderna ficou cheia de marxismo, como as obras de Jorge Amado.

            Façamos um pequeno exercício de imaginação: ao invés de ter um deus com dezenas de amantes, você tem uma dona Flor com dois maridos; ao invés de uma ciumenta Hera arremessando Hefesto do Olimpo, temos um Bentinho desconfiado de Capitu; ao invés de um trágico Major Policarpo, havia um Aquiles vencido por uma flechada no calcanhar. Não estou dizendo qual é melhor ou pior, estou apontando uma equivalência.

            Sendo assim, pergunto a São Basílio Magno se há algo de proveitoso na literatura contemporânea e tenho comigo que o santo responderia: Devemos ler mesmo a literatura contemporânea, pois todos que trataram do belo, ensinaram a virtude, cada um à sua maneira. Que se tire o que for de proveitoso e se ignore o que não for, mas leia!

OBRA COMENTADA: BASÍLIO DE CESARÉIA. Carta aos jovens sobre a utilidade da literatura pagã. Campinas: Ecclesiae, 2012.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.