Santa Carona

Deus e o mundo: a vocação do leigo

“A vocação cristã consiste em fazer poesia heroica da prosa de cada dia. São Josemaría Escrivá

Ao considerara a ação da grande maioria dos cristãos no mundo e sua participação nas questões que envolvem a chamada vidar ordinária, devemos ter em mente que aqueles que estão ligados a essa função, em plenitude, não são os ministros ordenados a hierarquia da Igreja, que não são os religiosos com votos em comunidades, mas sim os cristãos leigos. A ação que tem por intuito levar ao mundo essa força transformadora, que mudou a face a Terra, não somente com a ação de santos reconhecidos que estavam incumbidos pela tarefa ministerial, mas pela esmagadora maioria que, ao ocuparas todas as regiões da sociedade oferecem um sacrifício digno, um anúncio verdadeiro e, com isso, preparam o caminho para chegarmos à Cidade de Deus.

Esta mostra-se para nós a função do cristão leigo, estar no meio do mundo (compreendendo mundo aqui no sentido eclesiológico, no qual referimos aquele território fora da jurisdição da Igreja, ou seja, a sociedade para além dos membros do corpo de Cristo) com um chamado especial para fazer cumprir nele a sua vocação, a sua espiritualidade.

            Ora, essa condição, tão importante para o crescimento do cristianismo nas sociedades pagãs da antiguidade, ficou suspenso durante um tempo, mas fora retomado durante os períodos da segunda metade do século XIX e durante o século XX, tempos esses que foram relembradas a convocação geral para a qual todo o cristão deve ser: santo, independente da sua condição. Contando com um histórico cheio de eventos e com alguns personagens importantes, a vivência da espiritualidade do leigo veio ressaltar as palavras que durante dois milênios são proferidas: sejamos perfeitos, como o Pai é perfeito. Ou seja, todos devemos buscar o caminho de santidade. Tal retomada do anúncio da vocação para a santidade universal é uma das mensagens que nos foi deixada pelo Concílio Vaticano II em sua constituição dogmática Lumen Gentium, que, de modo específico nos capítulos IV e V, trata respectivamente dos leigos e da vocação universal à santidade.

            Antes de chegarmos à própria compreensão da ação e da espiritualidade do leigo, vejamos como é definida sua realidade dentro com corpo eclesial. Segundo a Constituição Dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, em seu trigésimo primeiro parágrafo, a definição que encontramos é a seguinte:

Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Baptismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja se no mundo.

A importante definição começa dizendo o que ele não é (via negativa) para, por fim, afirmar o que ele é. Assim sendo, fica claro para nós ao que está destinado o leigo: cumprir as realidades dirigidas a todo o batizado.

Essa realidade de batizado é, nada mais nada menos, que ser sacerdote, profeta e rei. Oferecer um sacrifício a Deus; anunciar a sua Palavra a todos; estar disposto a ser parte na construção do reino de Deus. Todas essas condições o leigo fará não como o ministro ordenado ou como o religioso consagrado, mas como batizado e membro da Igreja, a quem o próprio sacramento confere essas funções.

A atividade do leigo é, como mostra a mensagem o CVII, essa tríplice empreitada, é notório que por um bom tempo ficou deveras apagada no meio da cristandade. Para chegarmos ao que entendemos hoje como espiritualidade do leigo, temos que remontar a alguns nomes e algumas iniciativas.

As linhas mestras são essas:

No caso da consideração teológica sobre a espiritualidade dos leigos é preciso que tenhamos em conta três “movimentos” (Ação Católica, diversas ações sociais partidárias, Renovação Carismática Católica), dos quais falaremos de dois, e três personalidades (São Francisco de Sales, Santa Teresinha do Menino Jesus, São Josemaría Escrivá). Esse estudo deve ser culminado com as linhas mestras do Concílio Vaticano II sobre a espiritualidade dos leigos. (COSTA, 2011, p.11)

Ora, a Ação Católica, mesmo sendo uma iniciativa de leigos e muito querida pelo então papa Pio XI, mostrava os leigos como auxiliares da hierarquia. Isso em si não é algo ruim, pelo contrário, mas não deixa clara uma forma específica de atuação própria do leigo. Da mesma maneira a RCC, que auxiliou muito com seu foco na conversão a Cristo e no foco na acolhida da Pessoa, Presença e Poder do Espírito Santo, não trazia uma maneira específica da ação laical.

As três figuras de santos mostradas são importantes para compreendermos esse cenário. O primeiro, São Francisco de Sales, foi o autor da primeira obra de espiritualidade focada naqueles que vivem no mundo. Não tendo em vista religiosos, mas pessoas comuns em seus afazeres corriqueiros, o santo de Genebra conseguiu lançar uma pedra fundamental na restauração da percepção da vida devota na sua realidade com o livro Filoteia (mesmo este não sendo exclusivamente laical, por tentar “adaptar” aos leigos um esquema de vida dos religiosos). A figura de Santa Teresinha do Menino Jesus nos mostra algo de impacto: a santidade das pequenas almas. Ou seja, a florzinha do jardim de Jesus também pode ser santa em meio às grandiosas rosas. Isso é: a santidade está ao alcance, pode ser procurada e encontrara por qualquer um, não sendo necessário ser um grande eremita para tal. Uma mensagem importante e que deve ser vivida pelo leigo. Mas a forma mais clara de uma espiritualidade própria do leigo veio até nós, antes do CVII com a mensagem de São Josemaría, que viu o mundo como meio de santificação através do da vida e do trabalho ordinário. O Opus Dei surge com essa missão: levar a mensagem da vocação universal à santidade por meio da ação do leigo na sua condição própria e junto ao mundo, junto às pessoas.

Considerando essas mensagens específicas, o que o CVII faz e reforçar e relembrar tais constatações. A Lumen Gentium é o documento que valida toda essa pregação. Dá um status ao leigo no qual a sua espiritualidade está vinculada diretamente ao seu meio: no mundo ele encontra, apresenta e faz presente Deus aos que estão próximos.

A Lumen Gentium, em seu parágrafo 33, será clara no que é o apostolado do leigo:

O apostolado dos leigos é participação na própria missão salvadora da Igreja, e para ele todos são destinados pelo Senhor, por meio do Baptismo e da Confirmação. E os sacramentos, sobretudo a sagrada Eucaristia, comunicam e alimentam aquele amor para com Deus e para com os homens, que é a alma de todo o apostolado.


Mas os leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e activa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra (112). Deste modo, todo e qualquer leigo, pelos dons que lhe foram concedidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja, «segundo a medida concedida por Cristo» (Ef. 4,7).

Se o leigo vive no mundo, na mais certeiro que fazer do mundo o seu lugar de santificar-se e santificar tudo mais. Sem a implicância com a matéria, sem uma depreciação com a Criação, mas fazendo justiça ao lugar no qual habitou o Verbo Encarnado, relembrando que o ofício é algo que o próprio Cristo realizou em sua vida e deu ao trabalho um valor sagrado, o leigo fará uma aceitação da sua realidade que está instalada no meio do mundo e cuidará para que tudo que faça remeta a Deus.

Aqui é importante lembrar que a vida no meio do mundo, nas funções específicas exercidas por cada um dos leigos, remete-se ao sentido de valorizar o mundo, por ele conter bondade, por ser bom em si. Tomando por base a exposição do monge ortodoxo Nicolae Steinhardt no seu Diário da Felicidade, devemos desvincular qualquer possibilidade de pensar o mundo criado por Deus como algo ruim, pois aquilo que há de ruim no mundo, que faz o demônio seu senhor, é a corrupção que foi causada pela ação do pai da mentira. O demônio ao enganar o gênero humano no Éden, fez nada mais que uma corrupção do mundo, como uma imagem borrada, na qual as cores saltam de seus contornos. A mentira primordial enganou o homem que passou a não mais compreender o mundo fora das lentes daquele que o corrompeu.

Assim, para evitarmos uma visão negativa do homem pelo mundo, é interessante lembramo-nos que:

A secularidade da qual estamos falando é a secularidade cristã, isto é, um “estar-no-mundo” amando-o desde dentro e fazendo de tudo para construir a cidade terrena, mas impregnada do Espírito de Cristo, na vivência das virtudes cristãs e procurando atrair muitas pessoas ao Reino de Cristo. (COSTA, 2011, p. 54).

Isso é ter secularidade cristã, não permitindo que um espírito de secularismo[1] invada nossa vida, mas dando lugar a cada uma das coisas e realizado tudo com um “modo de se posicionar à respeito das coisas, pessoas e ofícios” (idem. P.55).

Após o documento conciliar, um texto que muito bem ressalta a espiritualidade do leigo é a homilia proferida por São Josemaría Escrivá no campus da Universidade de Navarra, em 08 de Outubro de 1967, que foi intitulada “Amar o mundo apaixonadamente”. O texto do santo espanhol é um chamado claro para o leigo se inteirar de sua condição, de seu papel e daquilo que lhe compete no meio do mundo e sem lamentações, sem estar voltado cegamente para questões fora da sua realidade.

Devemos procurar a Cristo, comungar com Ele e procurar o céu. Mas devemos evitar claramente o espiritualismo, isso é, acreditar-se puro o suficiente para não se misturara com as coisas desse mundo, vive apartado dele. Com o que já fora exposto temos a constatação de que essa visão está apartada do que vem a ser a realidade do leigo. Ele está no mundo, portanto, deve agir no meio do mundo.

Em um belíssimo trecho, São Josemaría esclarece que isso não é algo a ser feito, porque não devemos ter essa mentalidade. Lembra-nos que é a vida corrente é o lugar da existência cristã, pois

aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores – aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens. (ESCRIVÁ, 1967)

É necessário ter isso em mente, saber que estas são a realidade do leigo, não o outro mundo que poderia vir, que poderia ser, afastado de tudo. A santidade não está no mundo apartado apenas, mas está na nossa realidade concreta atual, na qual estamos instalados em nossa materialidade, em nossas necessidades, em nossos afazeres. E nessas condições devemos procurar “materializar a vida espiritual”, e isso é afastar-nos a tentação corriqueira de termos uma vida dupla: “a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas” (ESCRIVÁ, 1967).

Isso é a vivência de uma espiritualidade própria, na qual nada do que é do leigo perde-se, mas sim cresce, porque ele consegue encontrar na sua condição meios de viver santamente a vida de cada dia. E nessa vida o homem passa a compreender que o mundo –e não só o templo- é loca de encontro com o Cristo. Entendemos assim o porquê de amar o mundo: por ser caminho para Deus.

É nessa condição que o leigo deve agir e essa ação é imbuída de caráter apostólico. A realização de um bom trabalho, de um bom estudo, de uma boa capacitação é condição indispensável para a aquisição de meios de santificação diária e para que, imbuído das ferramentas necessárias sejam fiéis que possam levar o sacerdócio, a profecia e o reinado de Cristo aos demais pela força do exemplo e exercício da mentalidade laical.

Sobre a realidade da mentalidade laical devemos conceber as suas consequências: a) serem suficientemente honrados, para arcar com a nossa própria responsabilidade pessoal; b) temos que ser suficientemente cristãos, para respeitar os irmãos na fé, que propõem – em matérias de livre opinião – soluções diversas da que cada um sustenta; c) e temos que ser suficientemente católicos, para não nos servirmos de nossa Mãe a Igreja, misturando-a em partidarismos humanos (ESCRIVÁ, 1967).  Tudo isso deve surgir mediante a noção de liberdade do fiel, pois ela é condição de realização da vida santa.

Assim sendo, vemos que o leigo, dentro do mundo procura as formas de sua espiritualidade em meio ao cotidiano, ao ordinário. Ele será “sal da terra” e para isso deve ter uma vida cristã. A oração e visita dos sacramentos é imprescindível, pois sem isso, podemos retomar o ponto de Caminho (453): “Católico, sem oração?… É como um soldado sem armas”.

Considerando a ação no meio do mundo e a necessidade de cristianizar o mundo pela ação do apostolado pessoal leigo, nada mais importante que o preparo. Aqui vamos além da preparação profissional, falamos de formação pessoal. O que alguém sem o conhecimento necessário pode fazer? Ora, um trabalho mal feito, que pode por vidas a perder. Da mesma maneira devemos ter formação religiosa e cultural para termos base intelectual de ação.

O leigo deve, sem a menor dúvida procurar FORMAÇÃO. Vejam bem, uma catequese bem-feita é demanda da hierarquia, dos ministros ordenados que formarão os leigos ao ponto de serem pessoas conhecedoras da própria fé e saberão como lidar com as situações cotidianas. Mas existe uma limitação da catequese que deve ser suprida pelo estudo contínuo da Sagrada Escritura e do CIC. É importante isso para que não sabendo do que se fala, não poderá palpitar e assim não colocará ninguém em riso. A ação do que conhece é mais precisa e pode levar ao caminho de conhecimento de Cristo sem maiores dificuldades. Aqui colocamos o que deve ser conhecido pelo leigo: Sagrada Escritura, Catecismo, livros teológicos, históricos (bons), filosóficos, espiritualidade… tudo isso, para que cada vez mais preparado, melhor possa oferecer inúmeras realidades temporais ordinárias ao Reino de Deus.

Ao compreender o mundo como local de ação e de santificação, o leigo deixa o clericalismo, ou seja, para de procurar na vocação alheia a sua. Vivendo no mundo e santificando cada coisa feita, ele colabora para a expansão do anúncio da Palavra, santificando a outros e a si próprio. Não é uma questão de esperar alguma atitude da hierarquia, mas agir mediante a liberdade e respeito frente aos inúmeros desafios que surgem no nosso meio. Porque fora já anunciado que se nos calarmos, as pedras falarão. Assim sendo, não é lícito, como fieis livres e conscientes, esperar sempre uma manifestação da hierarquia. Há coisas que são cabíveis a ela sim, mas muitas outras, no campo político e social[2], só não podem como devem ser resolvidas pelos leigos.

Ação no mundo, santificá-lo e santificar-se nele: isso é mentalidade laical, isso é ação do leigo isso é a resposta ao chamado universal à santidade.


Referências

Compêndio do Concílio Vaticano II

COSTA, Pe. Françoá. Apostila de Espiritualidade dos Leigos. Novembro 2011.

ESCRIVÁ, São Josemaría. Amar o mundo apaixonadamente. disponível em: https://opusdei.org/pt-br/article/amar-o-mundo-apaixonadamente-2/


[1] Compreendemos aqui o termo como uma forma de humanismo que abstrai Deus. Já o termo secularidade enxergamos uma perspectiva de sociedade que tenha lugar para Deus.

[2] Sobre essas questões basta conhecer toda a DSI e como ela coloca a ação do leigo como ponto principal da propagação de uma visão de sociedade amparada na antropologia cristã.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.