Santa Carona

ANALISANDO UMA MÚSICA DO SEU JORGE

Gosto muito de MPB, e acho que Seu Jorge é um daqueles cantores que animam qualquer churrasco. Um churrasco muito mais digno do que aqueles que são regrados à doses de sertanejo, o que acho bastante indigesto.

Gostos e gostos, Seu Jorge tem uma música em especial cuja letra me deixou bastante pensativo. Inicialmente, apenas ouvi e fiquei cantarolando-a, mas depois, como que despertando de um transe, notei que aquilo que meus lábios pronunciavam estavam cheios de um dilema cuja reflexão valia a pena ser feita. Refiro-me a música “Amiga da minha mulher” (2011).

A música começa apresentando uma situação normal da vida, na verdade, ela começa apresentadas as personagens, antes de estabelecer um conflito entre eles. E é exatamente o que se apresenta na primeira parte da mesma estrofe que compõe os personagens.

Ela é amiga da minha mulher
Pois é, pois é
Mas vive dando em cima de mim
Enfim, enfim

Temos aqui, portanto, uma mulher casada e seu marido (pois se há uma esposa, logo há um esposo), essa mulher tem uma amiga, mas aqui está o problema: Sua “Best” está de olho no seu “Boy”. E aí que a situação se complica:

Ainda por cima é uma tremenda gata
Pra piorar minha situação.
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração

Aqui começa a reflexão sobre a condição do pecado, pois de fato trata-se de um pecado. Adultério é pecado! E um pecado gravíssimo, não é? Pois o eu-lírico diante de uma situação de pecado sente o mesmo que todos nós sentimos (com licença poética para a redundância): a tentação é tentadora.

Uma vez eu conversava com um rapaz que desabafava sua dificuldade de manter-se em continência (a virgindade se fora há tempos), eu tentava explicar a necessidade de guardar-se, mas ele prorrompeu “Mas sexo é tão bom!”. Claro que é! Ninguém é idiota de desejar algo ruim para si, isso é metafisicamente impossível. Eva também achou que a maçã era bom para comer, agradável aos olhos e apropriado para a inteligência (cf. Gênesis III, 6), o maior papelão que pode passar alguém é tentar julgar por si só o que é bom ou mau, somente pela atração.

No caso do nosso amigo, seria fácil dispensar a amiga baranga da esposa, mas não seria uma tentação real se não se tratasse de uma mulher de aspecto agradável. Afinal, como diria Vinícius de Morais: “As muito feias que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”. Se não for uma mulher bonita, não será uma tentação de fato. O mesmo vale para todo e qualquer outro pecado, sempre vai parecer algo bom, mas em si não é. Um rapaz bonito, um prazer gostoso, uma sensação louca, um impulso forte, um deleite repentino e por aí vai.

Minha mulher me perguntou até
Qual é, qual é?
Eu respondi que não tô nem aí
Menti, menti

O eu-lírico cai agora em duas roubadas, a primeira é a de não ter sido sincero. Fica sempre muito mais fácil para nós mesmos quando somos sinceros, assim quebramos o jogo do pai da mentira. Se ele tivesse aberto a real para a esposa, que já tinha sacado a parada, ela teria brigado com a amiga fura olho e mandado ela embora, mas como o marido falou que tava sussa, a mulher confiou em deixar a “miga” frequentando seu lar. Muitas vezes o que nos faz cair em pecado é a falta de sinceridade com os outros, o que acaba gerando uma situação na qual ficamos praticamente presos. Vale lembrar que a pior falta de sinceridade é aquela que fazemos conosco mesmo, como fez o eu-lírico:

De vez em quando eu fico admirando
É muita areia pro meu caminhão
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração

O problema das mancomunadas do Pai da Mentira, é que ele faz com que mintamos não só para “nossas mulheres”, mas mintamos para nós mesmos. O eu-lírico não só mentiu para a esposa de que não estava nem aí, mas mentiu para si mesmo, achando que aguentava, que poderia parar quando quisesse, que é o bonzão. Quantas vezes caímos no mesmo pecado porque exatamente achamos que dessa vez vamos conseguir por esforço próprio?

O fato é que a falta de sinceridade consigo próprio gera a maior das armadilhas, que é o diálogo com o pecado, você fica ali de papo com a situação, até que ela te cerca de todos os lados e você é finalmente pego. O eu-lírico foi insincero com a esposa, mas também fora consigo próprio, ao achar que podia ficar ali admirando a beleza da mulher que tentava lhe fazer cair em adultério. Se permanecer assim por muito tempo, sem dúvidas cairá.

Felizmente, não estamos sós. Quando estamos em uma situação de erro, ou ao menso no perigo de um erro iminente, alguém pode vir e nos tirar desse caminho. A correção fraterna é algo por demasiado cristão. Chegar em alguém que erra e aconselhá-lo a sair do erro é deveras necessário. Quantas vezes você saiu do erro porque alguém lhe corrigiu? Mas quantas vezes você se deu ao trabalho de corrigir alguém? Pode até parecer que você não deveria, “que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, mas por sorte não é essa a postura da mãe e do irmão da esposa do eu-lírico:

O meu cunhado já me avisou
Que se eu der mole ele vai me entregar
A minha sogra me orientou
Isso não tá certo é melhor parar

Se a correção fraterna parece algo infrutífero, repense sua caridade cristã. Mas posso sugerir que reze antes de falar e busque falar de uma forma mais efetiva. Uma conversa amigável, mostrando que se importe faz mais efeito do que um barraco. Afinal, somos cristãos e não participantes do programa “Casos de Família”.

O fato é que a correção surtiu efeito, e o eu-lírico decidiu enfrentar o problema com a maior coragem e sinceridade. Infelizmente, surtiu pouco efeito, pois a contraparte estava convicta no erro.

Falei, ela não quis ouvir
Pedi, ela não respeitou

A parte mais sensacional nessa música é sem dúvidas o refrão. Nele, o eu-lírico se coloca em dúvidas entre as possibilidades, luta consigo mesmo e entre o sim e o não, finaliza se proibindo de cair em pecado. Esse refrão prega com facilidade na nossa cabeça, e poderia sem dúvidas ser um mantra na hora da tentação, pois representa nossos dramas de querer e não querer ceder à tentação. O importante é concluir com “não peco não”.

Não pego, eu pego, não pego, eu pego, não pego não
Não pego, eu pego, não pego, eu pego, não pego não

Mas essa canção revela um final feliz, pois o eu-lírico admite que não é o bonzão que pode ficar admirando, e revela que não caiu na tentação. Mantendo-se fiel a sua esposa. Senhoras e senhores, temos aqui um “happy end”!

Eu juro! A carne é fraca, mas nunca rolou

A situação do pecado é sempre a mesma para todos nós, o demônio tem uma metodologia muito básica, mas o problema é que sempre caímos de bobeira na mesma situação. Quantos comentam que em vergonha de confessar porque são sempre os mesmos pecados. Bom, ainda bem que eles não estão inventando novos pecados! Mas batalhas antigas devem ser sempre travadas, pois o inimigo não descansa. Espero que o Seu Jorge possa te ajudar e não se esqueça: a carne é fraca, refugie-se em Deus, pois Ele é o único que pode te dar forças para para que você cante esse último verso.

Para quem não ouviu, eis a música analisada! 😉

Gostou do texto? Já conhecia a música? Escreva nos comentários o que achou. Envie para seus amigos que conhecem a música. Estarei aqui toda quinta-feira com uma texto novo.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.