Santa Carona

ASTROLOGIA É COMPATÍVEL COM A FÉ?

            As primeiras pessoas que vieram ao encontro do menino Jesus no presépio foram os pastores, após terem sido informados da vinda do Messias pelos anjos de Deus. Entretanto, o segundo relato que temos é o de que “Reis Magos” vieram do Oriente para adorá-lo. É sem dúvida uma das mais belas passagens da infância de Jesus, pois estes homens trazem, em seus presentes, as profecias que envolvem a vida de Cristo: ouro, pois Ele é o Rei de Israel; incenso, pois Ele é o Deus de Israel; e mirra, pois Ele vai morrer. Perfeito Deus e perfeito homem, e vai morrer em um ato redentor. Que belo prólogo!

            Mas há algumas coisas que devem ser mencionadas: o primeiro ponto é que eles não eram bem “reis”, mas vieram do oriente e foram recebidos por Herodes. Desconfio de que o soberano da Judeia não aceitaria qualquer peregrino pé-rapado. Quanto a “magos”, desconfio de que não eram implacáveis e muito menos minimamente próximos do que Gandalf e Saruman criaram em nossas mentes ao som dessa palavra. Felizmente, basta uma noção de grego para saber que “μαγός” é sábio. Ou seja, tratam-se de estudiosos, filósofos, como diriam os atenienses. Vale lembrar que também é desconhecido o número de membros da comitiva, o fato é que foram três presentes. Seriam os três conhecidos Melquior, Gaspar e Baltazar? Haveria um quarto sábio? Não seriam só dois? Deixemos três como ensina a tradição, toda história fica mais bonita com a presença do número três.

            Os sábios estudavam os astros, eram astrólogos. Por isso, no dia da festa da Epifania, o “dia de Santos Reis”, é também dia do astrólogo. Nos seus estudos sobre os astros, calculavam o tempo, o clima, as estações e toda espécie de ciência que possibilitou a nossa espécie chegar onde chegou. Ali notaram presságios de um rei e seguiram sua estrela. Não chegaram bem no presépio de São Francisco, nem mesmo chegaram em um mês. Sem dúvidas levaram uns dois anos de viagem (daí que Herodes mandou matar todas as crianças de dois anos para baixo) e quando chegaram, São José já tinha conseguido um alojamento mais digno para sua família.

            Alguns gostam de mostrar que nos pastores há a adoração dos judeus, os filhos da promessa, e nos reis magos está a abertura a todos nós de origem pagã. Penso em algo que me deixa mais confortável, primeiro Deus se manifesta a todos os camponeses e homens simples, mas trabalhadores; depois Ele também chama a nós que estamos cheios de livros, pesquisas e teorias. Por sorte chegamos – com um certo atraso – lá também.

            Mas este texto era para falar sobre astrologia, essa ciência praticada por alguns dos primeiros adoradores de Cristo. Seria ela contra a fé?

            O Catecismo da Igreja Católica é bem claro ao colocar práticas como astrologia, horóscopo e semelhantes como práticas de adivinhação, portanto, pecados contra o primeiro mandamento. Dante Aligheri é generoso na hora de incumbir um castigo nesses adivinhos em seu inferno. Seria tudo isso uma superstição a ser condenada, resolvendo-se assim a questão? Se sim, porque esses “três” astrólogos foram testemunhar a perfeita divindade e humanidade de Cristo? Por que há santos que se dedicaram ao estudo dessa ciência pecaminosa, como Santo Alberto magno, por exemplo? Por que renomados cristãos escreveram sobre isso, como Raimundo Lúlio, em plena inquisição?

            O fato é que existe uma confusão no estudo dos astros e de como influenciam a nossa vida. De fato, alguns tentam prever o destino que, segundo eles, está “escrito nas estrelas”. Essa prática é sem dúvidas pecaminosa, pois coloca em cheque o livre-arbítrio, dom de Deus e diviniza as forças que outrora foram deuses deístas. Entretanto, há uma astrologia que não versa sobre o futuro mas sobre o temperamento. Essa não parece adivinhar o que virá, mas explicar o que está bem debaixo de nossos narizes.

            Vamos com calma: a psicologia diz que todos nós temos nossa própria personalidade; esta não é um bloco conciso, mas uma mosaico de vários fatores: humor, vontade, liberdade, intelecto, memória, imaginação, sentimentos… et similia. São vários fatores cuja combinação possibilita a existência de milhões de bilhões de diferentes personalidades: cada um é um. No centro dessa personalidade, como motor pessoal, está aquela coisa chamada caráter, do qual fala todo o primeiro capítulo de Caminho, de São Josemaría Escrivá, e que nossos pais, diretores espirituais e formadores vivem mandando a gente melhorar. De fato, o nosso caráter pode e deve ser trabalhado, aperfeiçoado, moldado, para nosso desenvolvimento como pessoas.

            Mas no centro desse caráter, como peça central do motor, há o temperamento. Todos nós somos influenciados por um temperamento predominante que gira nosso caráter que por sua vez gira nossa personalidade. Detalhe: ele não comanda tudo, pois somos livres, mas pode influenciar tudo se vivermos “no ponto morto”. E o que seria esse temperamento? Galeno achava que eram quatro: melancólico, fleumático, sanguíneo e colérico; Carl Gustav Jung falava de introvertido e extrovertido; Myers fala de indagador, organizado, amistoso e realista; Talamonti de lunar, marciano, mercuriano, jovial, venusiano, saturnino, solar e julino; o filme Divertidamente (Inside Out) coloca em cada personagem uma emoção no controle principal do painel, enfim, são dezenas de teorias.

            Apesar de serem muitas as teorias, todas concordam com uma coisa: se o caráter é moldável, o temperamento não é. E mais: ninguém consegue dar uma explicação satisfatória do que faz com que cada pessoa receba determinado temperamento. O fato é: cada pessoa tem um temperamento que não pode mudar e não sabe de onde veio.

            Eu poderia ser simples como os pastores e dizer que é Deus quem dá o temperamento, mas infelizmente eu sou devagar na viagem e só chego depois de muito tempo, pedindo informações no caminho. Para mim, Deus não age diretamente em processos naturais, o mundo que criou é perfeito, altamente autossustentável, tudo está no seu devido lugar. Para que um universo tão grande cheio de planetas inóspitos? Ora, porque não ser simplesmente para reger a ordem da Terra?

            As diferentes fases da Lua não mudam a maré? Eclipses não alteram a colheita? Por que a posição deles não influenciaria a nós no momento de nossos nascimentos, no momento em que estamos mais inofensivos e sozinhos (acabou de se acabar o ligamento com a mãe)? Quantos são os relatos de traumas gerados porque a mãe não quis ver o bebê, ou o pai estava ausente ou a luz do hospital acabou… porque não as forças cósmicas que mudam marés e ciclos de plantio?

            Veja bem: não quero dizer que eles podem ditar a sua vida, pois você é auto possessivo e autodeterminante, mas podem dar uma peça inicial para você começar a fazer o seu jogo.

            E o que a Igreja pensa disso? Bom, tirando a parte do futuro, que condena taxativamente, ela não diz mais nada. Santo Agostinho tenta invalidar a astrologia em suas Confissões dizendo um caso de dois jovens que nasceram no mesmo momento, mas cada um teve uma sorte. Ora, é um bom exemplo de que os astros não ditam o futuro, mas o santo doutor não falou nada do temperamento dos dois. Por falar em doutor, Tomás de Aquino comentou:

Já foi demonstrado que, embora certas inclinações sejam produzidas na natureza corporal por influência dos corpos celestes, a vontade não as segue necessariamente. Não é pois impossível que a ação voluntária impeça o efeito dos corpos celestes, não somente no homem, mas também nas demais coisas às quais se estende a ação. (Suma Teológica I, q. 115, a. 6).

            Note que o Aquinate negou a determinação dos astros, que negaria a liberdade, mas deixou uma brecha sobre a possibilidade desses astros de influenciar a pessoa. Os astros não determinam o homem, mas influenciam.

Voltando ao Catecismo da Igreja Católica, além da parte da adivinhação, não há mais nenhuma colocação sobre esse assunto. Acho que a Igreja, como Herodes aos magos, deixa os astrólogos livres para partirem.

            Enfim, se mesmo demonstrando que a Igreja não proíbe, pode sem dúvidas ficar a descrença de que o signo não tem nada a ver com nada, e talvez permaneça a piadinha senil “– Qual é o seu signo? – Católico”. Bom, eu convido qualquer um a ler sobre as características de seu signo solar, combiná-las às de seu signo ascendente, notar como o que ele mais busca é o seu signo descendente. Note como suas atitudes, sua organização (ou desorganização), seus projetos estão ligados ao seu signo. Enfim, reparar como seu grupo de amigos é predominantemente de um signo compatível ao seu, como pessoas que você julga serem parecidas contigo na verdade tem o mesmo signo que você. Enfim, muita gente séria perdeu tempo estudando isso para você dizer que é pura baboseira.

            Como isso é possível? Não sei. Só sei dizer que faz um certo sentido, que funciona quase que sempre e como um curioso que animaria seguir uma estrela por dois anos, eu achei que era um assunto que valeria a pena sondar, não antes de ver que a Igreja não via mal algum no meu proceder. Já me ajudou até no apostolado, sabendo como tratar determinadas questões com cada signo. Há outros caminhos? Sem dúvidas há! Talvez alguns já chegaram com os pastores, outros aguardarão João Batista apontar, outros nunca chegarão como o quarto sábio, eu porém sigo essa caravana e fico feliz quando a estrela me indica o caminho.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.