Santa Carona

Pode bater palmas na Missa?

            É próprio da juventude trazer debates inúteis de detalhes de importância trivial cuja opinião acaba por dividir-se em dois grupos de extremos opostos. Isso é próprio da juventude, porque é próprio da humanidade que, devido a sua natureza sensível, está constantemente se esquecendo do que é essencial e ficando no meramente acidental. Entre os debates que tomam a esfera católica jovem está a discussão sobre as palmas. Assim, também eu decidi entrar na briga a fim de trazer uma opinião. Não tenho muitas esperanças de resolver a briga que está longe de ser resolvida, mas não posso resistir à tentação de dar meu “pitaco”.

            Existem muitos argumentos de ambos os lados. Aqueles que criticam a atitude efusiva, que chamaremos de “sineplauditas”, evocam a lembrança da Missa como ato sacrifical de Cristo e dizem não ser de bom tom aplaudir a crucifixão de Cristo no Calvário. Alguns cardeais, bispos e padres conservadores dizem que palmas são muito boas para um piquenique, mas péssimas para a liturgia. Enfim, alguns sineplauditas acreditam que a Missa é para se passar de cara emburrada ou de pescocinho entortado. Eles sem dúvidas têm uma série de textos de santos, documentos de outros ritos que não o romano e outros escritos semelhantes dos quais se baseiam, e por tal segurança doutrinária afirmam, quem bate palmas é um “TL” ou um herege e vai para o inferno por irreverência.

            Já do outro lado, temos os que defendem as palmas, que trataremos de “clappers”, eles são muito felizes e parecem ter a cabeça bem arejada, no sentido de que há muito ar e pouco miolo. São emotivos e desajuizados, achando que algo só pode ser divino se tocar sua sentimentalidade. Os clappers gostam de dançar e chorar na Missa e o canto do Glória é o ápice do evento.

            Ambos estão fora da verdade, explico: os sineplauditas se equivocam ao tentar refutar um espírito de pouco fervor, fazendo do seu fervor algo farisaico e disciplinar. Concordo que a Missa é o sacrifício de Cristo e não vejo a contradição disso com uma salva de palmas, ora, estivesse eu diante do Gólgota, teria eu aplaudido do meio de soldados assombrados, judeus encrudescidos, apóstolos desamparados e de uma Virgem Dolorosa, mas firme. Teria aplaudido com total entusiasmo e enquanto gritava: Fez tudo muito bem! Cada profecia cumprida à risca! Estamos salvos! Acabou! Ó Pecado, enfim nos separamos!

            A Missa não é só o sacrifício de Cristo, não comemos carne de um cadáver, a Missa é todo o mistério pascal, a Missa também é ressurreição, quem julgaria Maria Madalena herética se aplaudisse o Senhor da vida e da morte enquanto chamava-o “Raboni”? E mais: a Missa é o banquete celestial do Cordeiro, é a vivência de todos aqueles mistérios fantásticos descritos no Apocalipse de São João. Quem se espantaria ao ver a multidão dos alvejados no sangue do Cordeiro, ao vê-lo romper o lacre do livro, aplaudir calorosamente o único que é digno?

            A Igreja não se manifestou em matéria de palmas, ela não colocou nenhuma observação no Missal, não mandou nenhuma nota e nem mesmo as conferências locais o fizeram. Nenhuma proibição, nenhuma recomendação. Todos os comentários de cardeais, bispos e padres são mera opinião, não são norma. Quanto aos santos e documentos antigos, é evidente que se referem a ritos que de fato proíbem, mas tentar aplicar ao rito romano é no mínimo desonestidade intelectual.

            Quanto aos clappers e seu sentimentalismo, eles estão longe de compreender o mistério apocalíptico e sua fé é tão frágil quanto a duração do som de suas palmas, basta vir algo que esteja além da sentimentalidade e se desesperam. Se os que não ouviam a música consideravam o dançarino louco este não pode ouvir o som celestial pois estava cantarolando uma cantiga pueril. De que adianta estar cheio de júbilo no Glória se não há compunção no Ato Penitencial ou mesmo entrega de vida no Ofertório?

            Minha contribuição nesse debate entre sineplauditas e clappers é a de afirmar os erros de ambos, erros estes que estão na essência das meras palmas acidentais. Na regra áurea ensinada por Aristóteles, coloquemo-nos na mediação: qual o ponto de equilíbrio entre os dois? O justo meio entre ambos, eis a chave mestra desta questão: SIGA OS GESTOS DO PRESIDENTE DA CELEBRAÇÃO! Se o padre bater palmas, você bate palmas com ele. Se o padre não bate palmas, não se atreva a fazê-lo.

            Essa regra de ouro não é só mero formalismo dialético das posturas dos sineplauditas e clappers, não, antes isso, essa regra tem alguns bons fundamentos: há um fundamento mistagógico, um fundamento eclesiológico, um fundamento moral e um fundamento ascético. Tratemos cada um a seguir.

            Unir-se ao presidente da celebração, no sentido da mistagogia, isto é, do mistério, é unir-se ao sacerdote “alter Chritus” sabendo-se Igreja. Sabe por que o padre fica no presbitério e nós, leigos, na nave? Por que ele é o Cristo Cabeça e nós somos a Igreja, o Corpo Místico de Cristo. Assim, se a cabeça controla o corpo e o corpo deve ser submisso à cabeça, assim os fiéis devem seguir o padre ou haveria uma decapitação mística de Cristo e isso sim seria algo trágico do qual não se deveria bater palmas. Esse é o mistério que ali se celebra, todos nós somos o Cristo ofertado ao Pai, mas por meio do sacerdote que é a cabeça (“Receba o Senhor por tuas mãos esse sacrifício…”). Separar-se do alter Chritus é separar-se da oferta mística, é ter piedade em uma mera reunião de um clube local.

            No sentido eclesial, não devemos esquecer que somos comunidade. Alguns se fecham a esse termo achando que é algo marxista, mas é algo profundamente cristão. Os apóstolos formavam comunidades, as comunidades dividiam o seu bem, o próprio sacramento da Eucaristia expressa esse sentido quando o chamamos de “Comunhão”. Se no sentido mistagógico somos um só corpo, no sentido eclesial somos uma só Igreja, o povo eleito da Nova Aliança. Deus quer o povo unido em seus gestos, palavras e cânticos. Ele sabia dos tormentos que recairiam sobre Ele e mesmo assim estava preocupado com outra coisa: “Pai, que eles sejam um…”. Sigamos todos o pastor como um só rebanho de Cristo.

            No sentido moral está aí a virtude evangélica da obediência. Quantos senhores e senhoras da razão, recusaram a seguir o que é proposto pela hierarquia com ares de que são mais piedosos, mais zelosos, mais santos mais acertados que os líderes ali postos. Ninguém foi mais ridículo que o jovem Francisco a pregar aos porcos, nenhum gesto foi tão magnífico. Não se esqueça que Lutero (e muitos outros, alguns tão próximos de nós) caiu no erro que caiu, abandonando o sacerdócio, exatamente por desobedecer com intenção de ser mais puro e mais fiel. Não ache que louva a Deus melhor com palmas se o padre está de mãos postas, não amarre a cara e julgue-se puro se não acompanha as palmas do sacerdote. Quem obedece nunca erra!

            Por fim, há o sentido ascético. Que sacrifício melhor para oferecer a Deus do que passar pelo ridículo, do que ter que segurar seus impulsos para obedecer a um outro? Ora, não acredito que você deva cuspir na hóstia para seguir o padre, mas palminhas não são nenhum pecado e balançar o folhetinho pode ser mais incômodo que um cilício. Em sentido contrário, conter a vontade de seguir o ritmo dançante do Glória para estar na mesma serenidade do padre é uma mortificação também bem agradável a Deus. Quantas almas se salvariam se acrescentássemos ao nosso perfeccionismo litúrgico os pequenos sacrifícios de nossa miséria, afinal, Missa perfeita só tem uma e não é neste mundo.             Assim, sugiro que os sineplauditas e clappers sigam o que fazem seus padres. Se seu padre é um clapper e você sinepludita (ou ao contrário), pense nos fundamentos expostos acima, mas se o sacerdote pertencer a mesma “facção” que você, então fique tranquilo em sua paróquia e pare de encher o saco dos outros de outras paróquias. Se pode bater palmas na Missa? Poder pode. Se eu gosto? Detesto. Se o faço quando o padre o faz? Sim. Se é certo eu me contrariar? Eu já me contrario quando levanto cedo para ir à Missa. Enfim, entre clappers e sinepeluditas, eu acredito que a fórmula seja algo muito mais prático, mas nem por isso sentimental. Não tenho a pretensão de convencer radicais, mas hesitantes. Parafraseando aquela apresentadora ecumênica: Paz de Cristo para quem é de Paz de Cristo! Paz de Jesus para quem é de Paz de Jesus! Paz e Bem para quem é de Paz e Bem! Shalom para quem é de Shalom! Palmas para quem é de palmas! Mão posta para quem é de mão posta! A todos o amor de Cristo! Pax tecum! Ave! Gloria in aeternum!

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.