Santa Carona

A Teologia dos Versos de Adélia Prado

            Se da última vez que me dispus a falar da teologia de alguém o fiz de forma satírica, e refiro-me à análise da música “Beijinho no ombro” da cantora Valesca Popozuda (confira aqui), agora já afirmo de início que se trata de algo sério, cuja profundidade e simplicidade me estremece a alma como a resolução genial de uma história de detetive que estava debaixo do meu nariz o tempo todo.

            Católica professa, a mineirinha Adélia Prado é daquelas típicas pessoas de cidade pequena que, como declara a canção, tem mais simpatia, mais sorriso e mais sinceridade no “bom dia”. E se essas pessoas são sem cerimônias quanto aos modos formalísticos da cidade grande, sua fé é cheia de ritos e tradições. É incrível ver nos versos dessa poetisa como ela constrói diante do leitor uma cidade aconchegante com pouco ou nenhum trânsito, onde as mulheres vão à Missa aos domingos com o terço em mãos e rodeada de filhos em torno da saia. Já essa simplicidade e fé a tornam mais digna de crédito que muito filósofo e pensador que cria o próprio sistema da realidade, pois o simples camponês sempre lidou com o mundo tal como ele de fato é, como as visitas dos compadres com suas crianças é devidamente apreciada e poética em “Clareira”:

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem aos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos,
farejando e mijando com os cachorros.
Houve essa vida ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver.

Mas essa simplicidade, exatamente por ser um realismo, não afasta de modo algum a religiosidade, o que inclui Deus, como se vê no poema “Regional”, do seu livro, O Coração Disparado (1978):

O sino da minha terra
ainda bate às primeiras sextas-feiras,
por devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Em que outro lugar do mundo isto acontece?

            Mas para além dessa simplicidade campesina, os versos de Adélia Prado são mais ricos em profundidade do que a primeira escavada revela. Ela realmente rompe a poesia nacional, ao chegar com tudo, sua fé e sua feminilidade, como deixa claro nas primeiras linhas de seu primeiro poema: “Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira”. Na verdade, só pude compreender seus versos depois de lê-los em voz alta, como se só assim a sonoridade apresentasse o sentido e a mística do momento. Realmente, como ela mesma disse em uma entrevista, ler poesia, rezar os Salmos e a Salve Rainha são a mesma coisa. Aqui não há uma desvalorização de milenares orações, mas é que seus versos estão embebidos de mística. Eu não os recitei, eu os rezei.

 Seu primeiro livro, responsável por colocá-la do anonimato de Divinópolis aos holofotes da literatura nacional, é intitulado Bagagem (1976). É desse livro que vem o louvor do maior poeta da língua portuguesa brasileira, Carlos Drummond de Andrade: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”. Já nesse primeiro livro, a poetisa mostra as dores que sente pela perda da mãe por um câncer, ainda jovem, e de seu pai, após a idade adulta, como ela mesma deixou nos versos do poema “As mortes sucessivas”: “Quando minha irmã morreu eu chorei muito / e me consolei depressa. […] Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento. […] Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.” De fato, a morte da mãe e do pai muito lhe marcou, assim, muitos dos poemas são dedicados à memória deles, como no caso do poema “Resumo”:

Gerou os filhos, os netos,
eu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADES DOS SEUS, LEONORA.

Diante da perda de seus genitores, Adélia se sente só, e busca preencher o vazio deixado pelos pais. Seus clamores aparecem no seu “Poema esquisito”: “Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos? / É dentro de mim que eles estão”. Buscando constantemente por essa saudade, Adélia cai em uma espécie de existencialismo, ela descobre que a vida nessa terra é um vale de lágrimas e que tudo é efêmero, exceto Deus, conforme ela reza no poema “O homem humano”, de Terra de Santa Cruz (1981):

Se não fosse a esperança de que em aguardas com a mesa
                                                                                [posta
o que seria de mim eu não sei.
Sem o Teu Nome
a claridade do mundo não me hospeda,
é crua luz crestante sobre ais.

            Assim, a mulher marcada pela morte que se sente só, desprotegida de seus pais, decide buscar refúgio em Deus, o “Pai-Nosso”, e contar que Ele a livrará de tal sentimento, seus versos passam a ser uma oração ardente de adoção, como em “Orfandade”:

Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.       

Após, ter perdido os pais, ela sente como se tivesse perdido também a infância, esquece-se de que está velha e que já tem seus filhos. Esse é o drama de quem perde seus genitores, sente-se desvelado, exposto, sozinho. Lembro que minha mãe dizia ao ter falecido minha avó em 2010, como que em desabafo: “É” Agora eu sou órfã, estou sozinha”. O sentimento de minha mãe, Adelaide, é o mesmo sentimento da poetisa, Adélia. Em, Oráculos de Maio (1999), a mineira continua sua prece de “Pedido de adoção”:

Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
– não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.

O que Adélia Prado tanto pediu a Deus é exatamente o consolo que a transformou em uma poetisa “lírica, bíblica, existencial”. Ela queria que Deus a adotasse, e a resposta que sua prece de adoção acima é o consolador poema “Filhinha”:

Deus não é severo mais,
suas rugas, sua boca vincada
são marcas de expressão
de tanto sorrir pra mim.
Me chama a audiências privadas,
me trata por Lucilinda,
só me proíbe coisas
visando meu próprio bem.
Quando passeio
é à borda de precipícios,
me dá sua mão enorme.
Eu não sou órfã mais não.

            Ao passar por esse trajeto dolorosa da perda, a poetisa se fia em Deus e descobre n’Ele um pai amoroso em quem pode confiar absolutamente e somente, como fica bem expresso nos versos finais de “Terra de Santa Cruz”:

É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.

A dor de outrora passa a ser o motivo de consolo e Adélia torna-se poetisa franciscana, que exalta o que há de comum pois em tudo vê a enorme mão paternal de Deus. De fato, é imitando o “Cântico das criaturas” que Adélia começa seu primeiro livro: “Louvai o Senhor, livro meu irmão, com vossas letras e palavras, com vosso verso e sentido, com vossa capa e forma, com as mãos de todos que vos fizeram existir, louvai o Senhor”.  Embebida de espírito franciscano, a partir de então, a poetisa se renova, sente-se criança outra vez, a juventude lhe adentra, como expõe em uma estrofe de “A invenção de um modo”:

 Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.

É exatamente essa a teologia escondida nos versos de Adélia Prado, essa espiritualidade franciscana de alguém que descobre que já não precisa de um pai na terra pois tem um Pai nos céus. Como o santo de Assis se torna simples, jovial e filho confiante de Deus que faz de suas canções profundas orações, Adélia esconde-se no ordinário e passa a cantar a simples realidade mineira me louvor ao Senhor, seu Pai. O melhor exemplo desse modo alternativo de louvar ao Pai está no poema “Duas maneiras”:

De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobre mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o
                                                                     [Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.

Fazendo poesia, Adélia descobre que pode agradar a Deus, como o antigo conto do malabarista que se tornou monge e, uma vez que não conseguia rezar, fazia suas acrobacias para entreter Nossa Senhora. Adélia não só faz versos para Deus, mas descobre que o próprio Deus, Verbo Eterno, é poético. Adélia descobre que Deus é pura poesia, como conta em “O Servo”: “Poesia sois Vós, ó Deus. / Eu busco Vos servir”, ou deixa bem claro nos primeiros versos de “Guia”:

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem – sem coação alguma –
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela eu entendo a Paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.

Mas não seria isso uma falta de respeito com Deus? Adélia Prado não teria perdido o senso de respeito com o sagrado e banalizado o Criador? Acredito que não, como está em “O modo poético”: “Que a fonte da vida é Deus, / há infinitas maneiras de entender.”, mas é ela mesma o responde nos versos finais do já citado “O homem humano”:

O mar é tão pequenino diante do que eu choraria
se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que Te amo,
nem sem medo.

É esta a teologia em seus versos, uma teologia poética da infância espiritual e da filiação divina. A descoberta de Adélia é caminho a ser trilhado por todos nós cristãos, órfãos ou não. Todos somos chamados a nos perceber nessa realidade maravilhosa conferida no Batismo de que Cristo fez a todos nós filhos adotivos e amados do Pai, que quer que estejamos sempre unidos a Ele em todas as realidades maravilhosas desse mundo que Ele criou e declarou ser tudo muito bom. Só essa união com Deus e entrega da realidade a Ele é que vai garantir Sua misericórdia para nos livrar de nossos pecados tão numerosos.

Um cristão que não faz esse percurso e descobre esse “santo orgulho” de ser filho de Deus, não entra nessa infância espiritual tão necessária para a entrada no Reino dos Céus. Nos versos de Adélia Prado, vi coisas que tinha visto antes nos escritos de Santa Teresinha do menino Jesus, no modo de ser de São Francisco, nos pontos de Caminho de São Josemaría Escrivá e na filosofia de G. K. Chesterton. Vi que também ela percorreu esse caminho que não é garantia da santidade (ou já a canonizaria em vida), mas é um esplêndido traçar de rota. Também eu repito agora com ela: “Meu Deus, me dá cinco anos. […] me dá a mão, me cura de ser grande, / ó meu Deus, meu pai, / meu pai”.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.