Santa Carona

Mulheres na minha vida

“O mundo não precisa do que as mulheres têm. O mundo precisa do que elas são”, Edith Stein.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset, em seu livro Estudios sobre el Amor, traz uma interessante observação sobre a figura feminina. Ele pergunta: “Mas o que é uma mulher quando ela não é senão uma mulher?”. Faz esse inquérito depois de mostrar que a mulher tem como característica ser esposa, mãe, irmã e filha, mas não está encerrada nelas, que são importantíssimas para todo o universo humano. Mas há uma realidade que mostra a mulher ainda mais intrínseca, mais motivadora. Ortega y Gasset continua sua exposição e, por fim, mostra o que, segundo ele, é a mulher:

“O trabalho de uma mulher, quando ela não é senão uma mulher, é ser o concreto ideal (“charme”, “ilusão”) do homem. Nada mais. Mas nada menos”.

Devemos considerar que o ideal é o que alimenta a vida humana, ou, como Ortega diz, “o ideal é um órgão constituinte da vida”. Ideal aqui é mais que a noção que temos de coisas grandes a ser, são quaisquer excitantes psíquicos que temos, são

pequenos estímulos da vida: encantar, atrair, irritar, disparar nossos poderes. O ideal é um órgão de toda a vida encarregado de excitá-la. Como os velhos cavalheiros, a vida, madame, usa esporas. Portanto, a biologia de cada ser deve analisar não apenas seu corpo e alma, mas também descrever o inventário de seus ideais. Às vezes, sofremos uma decadência vital que não provém de doenças em nosso corpo ou em nossa alma, mas de uma má higiene de ideais.

Justamente todas essas coisas que representam os ideais. E em uma vida, a falta deles é um mal que pode gerar uma morte biográfica, uma impossibilidade de responder às questões existenciais que mais importantes. Isso porque os ideais, para Ortega y Gasset são “o quanto atrai e excita nossa vitalidade espiritual, são fontes biológicas, fulminantes pela explosão de energias. Sem eles, a vida não funciona”.

Na trilha do que Ortega disse, encontramos mais um importante testemunho alinhado ao ideal espanhol, vindo da América do Norte. Em um de seus programas de TV, transcritos no livro Vale a Pena Viver, o bispo Fulton Sheen expos as seguintes palavras:

Quem é o nosso ideal? Um percursionista, um soldado, um patriota ou um santo? Quanto maior o amor, mais exigências serão feitas em nós para estar de acordo com esse ideal. Em boa medida, o nível de qualquer civilização é o nível do caráter feminino. Quando um homem ama uma mulher, ele tem de se tornar digno dela. Quanto mais elevada for a virtude dela, a nobreza de seu caráter, a sua devoção à verdade, justiça e bondade, mais um homem tem de buscar ser digno dela. A História da Civilização pode ser efetivamente escrita em termos do nível das mulheres.

Dom Fulton Sheen mostrou, em certa harmonia com Ortega, que a mulher tem uma forte influência sobre o homem, sobre o seu ideal, sobre a sua formação. Aquilo que o homem faz é mediante o que ele quer alcançar, e nada melhor que o maior de todos os ideais, a mulher como aquela que ele busca, como referência ao que deve ser alcançado e como ele deve se moldar para ter acesso a ela. É como disse Ortega:

Mais exigente! Na minha opinião, esta é a missão suprema das mulheres na terra: exigir, exigir a perfeição do homem.

O homem se aproxima dela, procurando ser preferido; para este fim, ele tenta, é claro, reunir em um raio o melhor de sua pessoa para apresentá-lo ao belo juiz.

O homem então é aquele que vive em prol da ação de aperfeiçoamento de si para melhor atender ao seu ideal. Quando se depara com alguma mulher que lhe gera espanto, a única reação é tornar-se digno daquela companhia, de dirigir a palavra a ela e de estar capacitado para entrar em seu mundo, de poder ser observado por aquela presença externa que lhe olhará, com desdém ou com aprovação. A partir da reação da mulher pelo que o homem se mostra ele irá agir. Sendo incapaz de estar a seu alcance, buscará seu ideal, transformando a si mesmo naquilo que pode ser aceito pela figura da mulher. Quanto maior aquilo que uma mulher espera do homem, mais esforço haverá para que aquilo seja alcançado.

Considerando isso é interessante a observação de que

Assim como o homem tem por natureza o poder de aterrorizar uma mulher com um simples olhar de fúria, a mulher tem, com um mero olhar de desprezo ou de indiferença, o poder de jogar um homem no mais fundo da depressão, destruir todo o seu respeito por si mesmo e induzi-lo até ao suicídio. A beleza feminina é inseparavelmente uma promessa e uma ameaça. É um símbolo condensado de todas as ambigüidades da existência. (Olavo de Carvalho)

As mulheres em nossas vidas são essas forças indescritíveis, impossíveis de serem compreendidas como um todo. Certa vez Olavo de Carvalho disse que “As mulheres não querem ser compreendidas, elas querem ser amadas”. Essa situação move montanhas, mostra a nossa capacidade de encantarmos por alguém, de querer estar junto, de fazer parte daquele mundo e de honrar essa figura feminina que nos impulsiona ao melhor de nós.

Não falarei aqui de minha digníssima e amabilíssima namorada, ou da boníssima senhora minha mãe ou de minha distinta irmã. Estas estão incorporadas em minhas circunstâncias atuais de maneira tal que tudo mais em minha interação com a realidade passa por elas. É como disse o grande mestre Ademir Luiz em uma conversa iluminadora em meus dias de faculdade, na qual foi formulado um axioma de grande valor para meus dias posteriores: “o que importa na minha vida são meus livros, meus filmes e minhas mulheres”.

Portanto, falarei daquelas figuras femininas que, históricas ou fictícias, acabaram por ser importantes em alguma condição em meu trajeto pessoal, foram ideais de algum modo em minha formação, para que hoje minhas circunstâncias sejam menos ruins do que poderiam ser se não tivesse deparados tom essas magníficas mulheres.


Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja (1347-1380): como uma jovem, que padecia de graves doenças, da ordem terceira dominicana, analfabeta durante o período medieval pode ser considerada? Bom, primeiro que justamente com todas essas peculiaridades a jovem Catarina teve uma força e uma coragem que estava além dessas limitações. A igreja padecia com o problema do “Cativeiro de Avignon”, período entre 1309 e 1377 no qual o papa transferiu a corte de Roma para Avignon na França, o que gerou conflitos entre o clero e o poder secular. No meio disso surge a “frágil” Catarina que viajando inúmeras distâncias ia junto à corte papal e chamava atenção do Papa e de quem mais precisasse. E ainda conseguia tempo para ditar cartas a pessoas, leigas ou religiosas, que pediam seus conselhos. Foi uma das responsáveis pelo restabelecimento da corte papal em Roma.

Importância: no meio acadêmico, um ambiente onde quase todos diziam que era impossível a participação da mulher em qualquer coisa, essa mocinha mirrada da Itália manteve meus olhos abertos mostrando que as coisas não eram bem como estavam dizendo (somou a isso um texto que li mostrando a influência das mulheres romanas sobre seus maridos, sendo responsável até por envenenamentos quando sentiam-se contrariadas por eles). Ainda devo dizer que mesmo sendo analfabeta por quase toda a vida Catarina é uma das Doutoras da Igreja, título para quem tem uma contribuição considerável nas questões teológicas e doutrinárias. Seu epistolário é uma obra vastíssima para a orientação espiritual, sem considerar o conhecimento que ela mostrava possuir das Escritura e dos escritores da Igreja. Uma grandiosa mulher!

Pois então, foi a franzina moça italiana do século XIV a mulher responsável por ser a primeira muralha contra a enxurrada de ideologias do ambiente acadêmico.


Santa Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja (1098-1179): mulher invejável em conhecimento e áreas de atuação. Foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora alemã e mestra do Mosteiro de Rupertsberg. A lista é extensa em atuação e obras, e ela foi um complemento ao que foi visto em Catarina, pois era de alguns séculos antes e podemos constatar em Hildegarda uma atividade polivalente. No livro que Regine Pernoud escreve sobre ela mostra ainda outras atuações da santa que, além de intelectual, combatia heresias, abusos do clero e do imperador, e mantinha contato com grandes personalidades da época como o já famoso Bernardo de Claraval e até mesmo com o Papa Eugênio III.

Importância: sua pessoa somada à de Catarina tornaram ainda mais difíceis qualquer padrão vindo do mundo acadêmico ser engolido sem uma desconfiança prévia. Duas mulheres medievais que possuíam ação, fama e voz é para deixar tudo na paz e nos fazer ter mais crítica ao conjunto de informações passadas de forma monolítica e inquestionável. Mesmo não sendo um paraíso, o medievo não era o inferno. Era um período com problemas, mas com luzes de potência encantadoras. Hildegarda, assim como Catarina, é uma Doutora da Igreja e mais uma prova da polivalência feminina em tempos áridos para todos.


Edith Stein, ou Santa Teresa Benedita da Cruz (1891-1942): judia, que depois de um período sem religião converte-se ao catolicismo. Foi filósofa, aluna de destaque de Edmund Husserl, sufragista e por fim tornou-se monja carmelita. Lutou contra os problemas da Alemanha do início do século, principalmente pela dificuldade da ascensão das mulheres na vida acadêmica e pública em geral.

Ao ler pela primeira vez sobre Edith Theresa Hedwing Stein a reação foi assombro. “Meu Deus!! Quem é essa mulher? Como só agora a descobri?”, essas foram as perguntas que imediatamente surgiram. Passei a ler sobre e a ver o quanto aquela exímia erudita alemã foi genial. E a história dela traz de participação na Grande Guerra a estudos louvados por seus arguidores, a perda de cátedra por ser mulher (isso na primeira metade do séc. XX), por ser judia vai perdendo outras ocupações, até que seu processo de conversão a leva para o Carmelo. Mas nem mesmo aquelas grades puderam protegê-la do horror nazista e fora levada até Auschiwitz, onde morre junto ao seu povo. A fibra de mulher, a dedicação e entrega ao estudo, a vida interior daquela que se converte ao ler, em uma noite, a Vida de Santa Teresa D’Ávila sempre é emocionante.

A importância é mostrar que em um mundo em que está ruindo, mesmo abraçando causas importantes a sua própria realidade pessoal deve ser respeitada e mantida acima de tudo. Seja como como estudante, como sufragista ou como monja, o que importa é a Verdade. E aquele que busca a verdade, mesmo que não saiba, busca Deus. A “Pietá sem Cristo” de Auschiwitz ajuda a ver que a esmagadora maioria dessa que hoje buscam lutar por “direitos” estão fazendo é diminuir a figura feminina de sua realidade pessoal. Uma mulher como Edith Stein é exemplo inalcançável para as mentes frágeis de nossos dias.

Sophie Scholl (1921-1943): para não dizer que só santas, vai uma moça luterana. A jovem que se tornou um dos símbolos contra o governo nazista.

A jovem estudante universitária da cidade de Munique, 21 anos, após ser presa passa por interrogatórios junto à Gestapo. Do dia 19 a 22 de fevereiro de 1943 respondeu aos questionamentos impostos, tanto em sala reservada, ou na corte presidida para lhes condenar. Foi firme nos seus ideais até o momento final, assim como o seu irmão. Era cristã luterana, tinha profunda admiração por Santo Agostinho e carregava, mesmo quando era proibido possuir livros particulares, uma cópia de suas Confissões, e também foi grande leitora dos sermões do Cardeal Newman chegando a passar os volumes para seu noivo que fora para o front de batalha. Dentro do que tinha como guia de consciência colocou-se contra o genocídio de jovens alemães e uma guerra sem sentido, mas que nenhum dos estrategistas alemães conseguiam ver como perdida; foi contra a desvalorização da vida dos judeus, deficientes e demais pessoas que eram levadas aos campos de concentração, aqueles que eram considerados como sub-humanos; pedia a liberdade para as opiniões, mesmo que contrárias ao pensamento de Hitler; agia de acordo com seus princípios e com a consciência que formou a partir deles e desacreditava dos meios de governo imposto pelo Partido Nacional Socialista Alemão.

Em sua luta acabou sendo condenada à morte, mas não deixou o tribunal sem antes avisar aos que lhe condenaram que em breve seria a vez deles naquela posição. Sem pestanejar, abraçou a sentença com a certeza do dever cumprido. Ao fim, um dos panfletos do grupo Rosa Branca foi contrabandeado para o Reino Unido e espalhado por aviões Aliados na Alemanha[1].

Ela não desonrou sua consciência e pagou com a vida não aceitar aquele mundo que o Terceiro Reich tentava construir. Mais uma surpresa encontrada em alguns livros e que por fim é exemplo de integridade de caráter muito além do comum em nossos dias.

Sônia Marmeládov (personagem de Crime e Castigo de Dostoiévski): essa não existiu em carne e osso, mas a sua possibilidade de existência que o mundo da literatura nos trouxe é mais que suficiente para tê-la nessa lista.

Sônia é uma personagem que consegue expressar as mais doces virtudes, mesmo estando na condição de prostitua. É cristã e vive sob a sombra de Deus, mesmo estando obrigada a vender-se para a sobrevivência de sua família. Sua bondade transborda e a força de sua alma é a ferramenta de iluminação Divina que leva o assassino Raskolnikov a ver seu crime e sua condição de criminoso, sendo responsável por tirar uma vida. É a figura frágil da jovem Sônia que canaliza Raskolnikov para a metanóia, a partir da presença e convivência com aquela alma que tudo começa a mudar. Converter um homem pela sua doçura e benevolência, mesmo estando em situação pessoal gravemente comprometedora em virtude da manutenção da família do pai alcoólatra e uma prova de seu heroísmo (algo que pode ser qualificado como aquilo que o homem do subsolo lembra ser função do herói: mesmo na lama levantar-se limpo). É a presença do bem mesmo no meio do charco. É a forma como Dostoiévski explica a fala do Cristo: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

Menção de honra:

Santa Teresinha do Menino Jesus, doutora da Igreja (1873-1897): nunca fui devoto da santinha, mas por ver o quanto ela consegue aproximar pessoas, principalmente moças, de Deus e da Igreja, ela passou a chamar minha atenção e mostrou-se um grande ideal de serviço, paciência, doação e entrega à providência. A Doutora da Pequena Via é referência para ter sempre em mente que a nossa função é servir. Usar de seus ensinamentos é sempre estar a postos para melhorar e não importar com a falta de força pessoal, pois basta servir. O mais interessante é:  ela ajuda mesmo quem pede ajuda para levar orações até Deus.


Pois bem, depois de ter tantas mulheres excepcionais em referência o que temos exposto como grandes figuras femininas quando abrimos qualquer veículo de mídia não serve nem para alívio cômico de tão trágico que são. Em um mundo onde tivemos Catarina, Edith, Hildegarda, quem é essa turma de famosas lacradoras na fila do pão?

[1] Trecho de uma resenha feita sobre o filme que conta sua história, Sophie Scholl – Die Letzten Tage de 2005 (no Brasil ‘Uma Mulher Contra Hitler’) dirigido por Marc Rothemund. O texto completo está disponível em: https://www.santacarona.com/2016/12/26/sophie-scholl-die-letzten-tage/

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.