Santa Carona

A Iniciativa dos Leigos

            Ser leigo na Igreja Católica é complicado. A Igreja reconhece e sabe da nossa importância, mas nós não sabemos e nem fazemos muita questão de saber. Eu diria até que não queremos saber. Há algumas iniciativas por parte dos sacerdotes de promover o laicato, mas parece que até eles tropeçam nos próprios esquemas e o agir do laicato fica atado ao do padre. Minha intenção é, portanto, fazer algumas reclamações, sugerir algumas mudanças e no fim deixar cada um sozinho com sua própria consciência.

            Leigo, ao contrário do que o contexto da hierarquia católica deixou na mente do povo não é alguém desinstruído. Fico extremamente deprimido quando vejo alguém dizer que é “leigo no assunto” para demonstrar sua ignorância e pouco comprometimento. Felizmente, ninguém diz que é “clérigo no assunto” para se mostrar entendido e especialista, mas mesmo assim isso está ruim. É claro, antigamente os padres eram muito cultos e realmente parecia que ser leigo era ser superficial, mas hoje em dia temos sacerdotes tão imbecis quanto qualquer professor da educação básica, a queda da intelectualidade veio para todos os brasileiros e brasileiras.

            Leigo e uma palavra de origem grega, cuja raiz está em λαός, que quer dizer “povo”. Ser leigo é fazer parte do povo de Deus. É claro, pode ser que haja aí uma ignorância, pois o povo tende a ser mais raso, por isso não somos teólogos e teólogas, somos antes pais, mães, jovens, crianças, idosos, celibatários, profissionais, enfim, somos batizados que precisam de instrução do clero e também de administração do sacramento, mas somos povo e não massa. Devemos ser ativos e não passivos. Saber o nosso papel e cumpri-lo bem e não ser um ignorante perdido.

            A porta de entrada para o laicato é o sacramento do batismo. Os leigos somos nós, os batizados. Talvez seja essa a primeira noção que se deva resgatar para entender o que é e qual é o papel do leigo. Se o leigo é o batizado, é alguém iniciado, membro, participante e herdeiro. E mais, o batismo serve para nos fazer um povo de reis, profetas e sacerdotes. E é exatamente essa a centralidade do laicato que se perdeu e que esconde qual o papel dos batizados: serem povo de reis, profetas e sacerdotes.

            O sacerdócio comum é algo maravilhoso, mas muito atacado, se progressistas acham que ele nos faz igual aos ministros ordenados, o tridentino torce o nariz achando que ele é algo essencialmente protestante. Mas o que é um sacerdote? Todos os povos primitivos tinham um sacerdote. E tem quem diga que a religião não é algo natural. O papel do sacerdote era se comunicar com a divindade pelos demais, oferecer os sacrifícios e conseguir o perdão dos pecados, bem como as bênçãos desejadas pela tribo. Dito isso, pergunto: Quem nunca agiu como sacerdote? Quem nunca ofereceu uma comunhão ou uma intenção de Missa por alguém? Quem nunca intercedeu por um conhecido? Quem nunca ousou tratar diretamente com Deus e, chamando-O de Pai, pediu algo para si ou para outro? Quem nunca pediu perdão ao Senhor por seus próprios pecados ou pelos pecados daqueles que O ofendem? Quem nunca fez sacrifícios? Quem nunca ofertou moedinhas ao Senhor na cestinha do ofertório?

            Somos sacerdotes! Não somos de um sacerdócio ministerial como aquele dado no sacramento da Ordem, mas o sacramento do Batismo nos fez participar do sacerdócio comum. Assim, ser leigo é ser participante do sacerdócio comum. Então qual é o papel do leigo? Oferecer muitos sacrifícios por si e pelos outros; tratar com Deus e com os santos e pedir coisas, agradecer e louvar; implorar o perdão dos pecados seus e dos outros; e santificar as realidades da tribo. Que tribo? Qual é a sua tribo? Quando eu explicar os outros dois aspectos, tratarei disso.

            O segundo aspecto é o múnus régio. Somos reis! Parece estranho, pois queremos ser povo, suseranos, serviçais, plebeus, mas somos membros da nobreza. Somos príncipes e princesas, filhos de “El Rey”, o Senhor do Céu e da Terra, somos filhos da Rainha dos anjos e dos santos. É claro, somos reis bondosos que não oprimem, mas cuidam, mas isso não nos tira a nobreza e nos transforma em proletários. Somos reis que do seu trono servem os irmãos e irmãs, e até mesmo (e sobretudo!) os plebeus que não são leigos, isto é, não fazem parte do povo. Não estou querendo ferir a dignidade do ministério ordenado, mas os clérigos servem a nós, como servos dos servos. Por mais que nossa docilidade aos pastores faça deles um pouco folgados, achando que somos funcionários não remunerados em suas paróquias, mas é o pastor que cuida da ovelha ou a ovelha que vigia o pastor? Amamos nossos padres pela sua dignidade e doação, mas eles se consagraram por nós.

            Somos reis e rainhas! Devíamos fazer o que os reis fazem. E o que bons reis fazem? Vejamos os líderes da tribo: eles cuidam do povo, lideram, mantém a ordem. Então que nós também assumamos posturas de líderes, que cuidemos de todos e que estabeleçamos a ordem do reinado de Cristo, que não toleremos a injustiça e que façamos a caridade perpassar todos os aspectos da vida. Como liderar na sua tribo? Qual é sua tribo? Vejamos o último aspecto dos leigos e tratarei disso.

            O terceiro e último aspecto é o múnus profético. Em algumas culturas o sacerdote e o profeta eram um só cargo. Se o sacerdote é o único que pode tratar com a divindade e falar a ele por todos os membros da tribo, o profeta (ou oráculo) era aquele que a divindade escolhia como porta-voz. Ele não necessariamente anunciava o futuro, o que poderia acontecer e acontecia na maior parte do tempo, mas falava o que a divindade queria, suas palavras não eram suas, mas divinas. O profeta ainda pregava e alertava sobre a observância dos ensinamentos divinos.

            A profecia no cristianismo perde o caráter de previsão do que virá, pois em Cristo Deus já disse tudo que tinha para dizer, pois Sua Palavra fez homem e andou em nosso meio. Não há nada de novo para se acrescentar ou alguma nova profecia para se cumprir (exceto a parusía, a segunda vinda de Cristo). Porém, o profeta não perde seu valor, sua função é anunciar o fiel cumprimento de todas as profecias, a Boa-Nova, o Evangelho de Cristo. Seu papel é ser o porta voz do Deus que esteve aqui e o enviou. Como anunciar a palavra de Deus na tribo?

            A tribo! Qual é a sua tribo? Muitos sociólogos falam de tribos urbanas, mas todos nós temos de fato pequenas sociedades na qual pertencemos: nossa família, nossa classe, nosso trabalho, nosso time de futebol, nosso grupo de pesquisa, nossos amigos do rolê e por aí vai. Quantos ambientes tocamos livremente onde um padre nunca chegaria. Se o múnus profético, régio e sacerdotal fosse só dele, nunca haveria uma entrega dessas tribos a Deus.

            O papel do leigo é, portanto, ser reis profeta e sacerdote nas tribos que frequenta. Ele deve ser rei: deve ser o melhor, o mais capaz e dedicado, o líder que não reina como tirano, mas é um verdadeiro “paizão” de todos, que com todos se importa e a todos ama. Ele deve ser profeta: deve anunciar o reino de Deus, falar do Cristo eu nos salvou e tornar conhecida a doutrina da Igreja, mas que não o faça de uma forma constrangedora, pois é exatamente por isso que é ele e não o padre o profeta de sua tribo, ele conhece as regras da tribo, sabe como ser profeta sem assustar, mas conquistar a todos. Ele deve ser sacerdote: deve santificar as realidades da tribo, transformando o estudo, o trabalho, as alegrias e dores da tribo em hóstias a serem consagradas ao Cristo, deve interceder por todos e conseguir para si os demais membros da tribo o perdão dos pecados, mediante a penitência.

            Mas isso é impossível se o leigo não tomar consciência de que é esse o seu papel. É muito bom fazer parte de pastorais e encontros, mas isso só dura o fim de semana, você pode fazer parte de mil e uma pastorais na sua paróquia, mas não será verdadeiramente leigo se não obedecer ao “Ite Missa est” e levar Cristo para sua tribo como rei, profeta e sacerdote d’Ele eu você é. Por que isso? Por que não fazer de todas as tribos uma grande sacristia da Igreja? Porque, humanamente falando, o padre não dá conta. Um padre não consegue coordenar tudo. Paróquias cheias de pastorais e movimentos tomam o tempo do padre em reuniões e formações e ele não consegue celebrar os sacramentos.

            Pelo contrário, se você e os demais leigos da sua paróquia conseguirem prestígio profissional e serem respeitados em seus trabalhos e faculdades, serão exemplos para os demais, se com humildade, caridade e tolerância, vocês forem se tornando queridos pelos colegas, poderão arrastar um a um para a Igreja, mas você mesmo os iniciará na doutrina, se você reza e se mortifica por eles, verá que Deus faz a maior parte na conversão deles e você só dá um empurrãozinho. Se você agir assim, verá que o papel do padre não vai ser inventar novas e novas pastorais, mas ficar sentado no confessionário, recebendo essas pessoas que vocês leigos enviaram.

            Se os leigos usassem sua criatividade e pensassem por conta própria, sem ser os empregadinhos do padre, e bolassem jeitos novos e envolventes de atrair pessoas, o padre não precisaria ser criativo, e fazer Missas com fantoches e outras coisas, pois não precisaria atrair, só receber sacramentalmente. Se o leigo tivesse cabeça para fazer um grupo de estudos, um clube do livro, uma associação caritativa, uma ação laical e coisas do tipo para santificar as realidades do mundo, fazendo filtros mundanos para capturar as pérolas que estão nas ostras, o padre, que é ministro dos sacramentos, não precisaria ficar trazendo realidades mundanas para os sacramentos.

            O problema é que o leigo se julgou ignorante no assunto da evangelização e o padre teve que fazer o trabalho de todos. Somos mais numerosos e temos mais passaportes para adentrarmos várias realidades da vida civil, onde conhecemos as regras de comportamento melhor que o padre e sabemos como impregnar tudo com Cristo sem que ninguém ache estranho ou radical, ou seja, somos mais eficazes que o padre. O padre é pouco eficaz, esculhamba como os sacramentos e se mata de trabalhar para nada, enquanto nós colocamos abraçamos um cristianismo de sacristia, cheio de cruzes, camisetas de santo e coisa que mostram: olha eu sou católico, mas fiquem longe de mim, pois vocês são pecadores. O que na verdade afasta o povo que o padre estava tentando juntar com os pulinhos, palminhas e fantoches.

            Sei que tudo é utópico, onde já se viu sonhar que todos vivam conforme a realidade de seu batismo e cada um faça seu papel sem ficar apontando a culpa para o outro que precisa dar o primeiro passo para eu sair do comodismo. A iniciativa dos leigos fica então como algo que peço que venha um dia, assim como a vinda de Cristo. Só espero que venha logo, pois os evangélicos já entenderam como funciona. Será que o Filho do Homem, quando voltar, ainda encontrará fé católica sobre essa terra?

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.