Santa Carona

A TL é tão forte assim?

            Eu acredito que todo bom herói precisa de um vilão tão carismático quanto ele. Ora, sem o Dr. Destino, a família Richards seria apenas um grupo de pesquisa chato financiados pelo governo publicando artigos que ninguém lê; sem o Coringa, o Batman seria apenas um milionário com sérios problemas mentais; sem o Magneto, os X-Men só enfrentariam as provas e trabalhos bimestrais do Instituto Xavier.

            Talvez seja por isso que a juventude conservadora pintou um enorme monstro diabólico para combater, um monstro que destruiu a Igreja no brasil e que eles devem combater com todas as forças, mas cada vez que olho bem esse monstrengo, tenho me indagado cada vez com mais frequência: a Teologia da libertação é tão forte assim?

            A primeira coisa que descobri foi que nem tudo que se diz “TL” é de fato “TL”, como nem tudo que reluz é ouro e nem todo vagante é vadio. Antes disso, muita coisa é sentimentalismo barato, jogada política, desespero criativo e amplificação sonora de um latido de um cão que não morde. Quando abstraí tudo isso, encontrei algo decadente, em vias de se acabar e, pior, totalmente autodestrutivo. No fim nem deu raiva de quem é TL, o que deu mesmo foi pena.

            No nosso atual panorama, temos centenas de cabeças ocas que não querem parar um minuto sequer para refletir, mas vivem sendo carregados pelos sentimentos. Esses sentimentos, por sua vez, não são definidos, como se tivéssemos pessoas super-humanitárias, mas o que se tem é uma enxurrada de sentimentos carregando toda uma geração que esqueceu como nadar. Os tempos de hoje não são um desafio apenas para padres e professores, é também para psicólogos e psiquiatras.

            Nessa dificuldade de ser levado arbitrariamente pelos sentimentos, a religião virou (como a educação, a política e o entretenimento) um momento catártico. Daí que se deseja dançar, chorar, desmaiar e aprontar o que se passar na cabeça no culto divino. Bom, isso não é necessariamente algo TL, é apenas um caso de pré-adolescência espiritual, falta apenas maturidade. Daí que a maior rival da TL seja a Renovação Carismática Católica e não o tradicionalismo. Observe, onde entram os carismáticos com seus fenômenos místicos e um espiritualismo exagerado, não há espaço para uma TL cheia de comprometimento social e um materialismo deprimente. Ambas são carregadas de sentimentalismo, mas se diferem totalmente quanto ao foco. Uma almeja a experiência espiritual individual e a outra quer a luta material social, mas ambas produzem a tão querida catarse. Assim sendo, abusos litúrgicos e todo esse “auê” que deixam católicos conservadores de cabelo em pé não são necessariamente um caso de TL, mas uma patologia geracional e falta de estudo racional.

            Podemos anda acusar a hierarquia católica de estar corrompida, mas o que notei na movimentação dela foi que os bispos têm um excelente rebolado e dançam a música que se toca. A conferência episcopal bem como os altos cargos do episcopado brasileiro mostram que sabem ser bem flexíveis ao contexto do momento. Assim, a alta cúpula não dá muito “ibope”. Caso aconteça de um padreco ou até mesmo um bispo isolado fazer algo em seu território, isso é mais um sinal de que ele é um bobinho não adequado para escalar a pirâmide, fica queimado com os inimigos e com a hierarquia, de tal forma que a maioria já está parando de fazer isso e se adequando ao “sistema”. Em tempos de conservadorismo radical (que já chegou até à presidência), a conferência e suas campanhas ficarão quietinhas. Se fosse realmente a TL, aceitaria o “martírio social”, tornando-se heróis do povo, mas falta “heroísmo” e sobra a boa e velha diplomacia eclesiástica.

            Nos casos de invencionices na liturgia e na arte sacra, o que fazem os conservadores mais rasos espumarem pela boca (pois é algo que se dá a nível acidental, onde qualquer jovem raso nota), o que vejo não é algo propriamente TL, mas um desespero de sacerdotes que precisam fazer um show novo e interessante para atrair o público que o discurso político afastou. Os mesmos que entram com a bíblia dentro de um coco, fechariam um acordo com a Som Livre, se isso trouxesse a massa desejada. Isso não é TL, é uma má compreensão do que é a evangelização seguido de desespero e a criatividade mal canalizada de padres e jovens entediados. É claro, é um abuso litúrgico e um tremendo desrespeito com o sagrado, mas é só fruto de uma falta de fé e de uma compreensão massiva da religião, o que pode ser fruto da TL, mas não é ela necessariamente.

            Por fim, acho que os maiores colaboradores da TL são seus autodeclarados inimigos. A juventude conservadora moldou seu próprio arqui-inimigo para fazer o movimento dialético, o que não deixa de ser engraçado, dado que o pensamento hegeliano é a base do marxismo que, por sua vez, é a base da TL. Os jovens conservadores são ávidos por vídeos e fotos de “abusos litúrgicos” e outras peripécias da TL, que divulgam e praguejam aos quatro ventos. Note bem, nos seus grupos de WhatsApp e afins, com que ânimo você denuncia os erros e com que frequência você divulga algo bom, belo e verdadeiro. É muito melhor denunciar o inimigo do que louvar o que é bom, pois combater e próprio da juventude.

            Assim sendo, notei que a TL é um cão que ladra e não morde, faz muita polêmica para “causar com as inimigas”, mas na hora do “vamos ver” não faz nada. É como um cachorro de pequeno porte, que late muito, mas nunca se aproxima para atacar.

            E o que sobrou da TL? Notei um organismo doente, autodestrutivo já agonizante. Muitos dos verdadeiros ideólogos já desistiram do que a TL propunha e prometia, viram-se enganados. Os que ainda persistem são velhos que não veem o porquê voltar atrás depois e tantos anos de caminhada, os mais jovens não prometem perdurar muito. Como essa ideologia igualou o sacerdote ao leigo, não há mais ninguém que queira ser sacerdote. Onde a TL está ou passou, não há vocações. Essas só se dão onde há oração. Os seminários, em geral, estão abarrotados de seminaristas conservadores, alguns dão a bobeira de demonstrar e podem, por isso, serem dispensados, mas muitos escondem para no momento certo, levantarem-se como uma nova geração de clérigos. Alguns poucos que insistem com a ideologia não o fazem por se comprometerem com os pobres, querem mais é uma forma de anestesiar sua consciência para seguir sua vida moral dúbia e de seus distúrbios sexuais.             A TL afastou os fiéis, esterilizou as vocações, desacreditou os padres, empobreceu a teologia e desligou a religião de Deus. Tentou criar uma religião sem fiéis, sacerdotes e divindade. Se fosse um partido, teria dado certo, mas ainda se diz religião, então atirou contra a própria cabeça. Nesse sentido, acredito que nos vale o conselho de Gamaliel ao sinédrio e deixemos a TL de lado, se ela não for algo de Deus, e de fato não é, ela vai morrer em questão de tempo, tão logo seus agitadores se cansarem ou partirem para o nada ao qual acreditam. Assim, tão logo os zelosos e infantis coroinhas parem de tentar agarrar a satânica fumaça, ela vai se dissipar no ar, como se nunca tivesse estado ali.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.