Santa Carona

Formação do núcleo intelectual pessoal

Por certo tempo fui percebendo que alguns intelectuais faziam algo que via em mim como uma característica perturbadora: a menção frequente a um mesmo conjunto de autores ao princípio de alguma reflexão, com o foco em algumas questões e temas. Mesmo que transite por outros autores e assuntos, ainda passam por esses que são muito presentes.

Depois de perceber isso em mim fiquei intrigado, como se visse uma “limitação” na capacidade de argumentação, seleção e absorção de conteúdos, até mesmo de autores. Essa preocupação era comigo especificamente, mas chamou atenção ao perceber a recorrência de situações similares também em outras pessoas incomparavelmente melhores que eu.

Mas o que consegui ver nos grandes foi uma posição diferente da limitação: era um traço do que posso chamar aqui de seu “núcleo intelectual pessoal”. As influências e referências que estavam ali eram os principais auxiliares que poderíamos notar na condução das reflexões; são mestres que ensinaram e se fazem presentes nas horas de realizar uma tarefa. Ou seja, nada de limitação, é a seletividade frente ao que importa em nossas reflexões. A partir desses mestres o pontapé inicial é dado e pelo qual o restante das demais atividades intelectuais perpassa.

Quanto mais lemos, estudamos e absorvemos conhecimento das mais variadas fontes, mais seletivos ficamos, e nessa seleção os mais importantes dentro de nosso interesse e afeição ficam ao alcance das mãos. São esses mestres mais próximos que orientam o trabalho que faremos com outros, são o ponto de partida para qualquer outra referência. Esse núcleo intelectual pessoal seria justamente o conjunto de autores, temas, problemas e leituras que nos são recorrentes e sempre nos oferece uma estrutura para ação. Só que ao invés de ser sinal de pouco conhecer é sinal de crivo por aquilo que nos é caro.

Seriam (em uma analogia simbólica) como os daemons gregos a nos influenciar; seriam como nossos mestres a nos cobrar as lições; ou uma “assembleia intelectual” à qual dirigimos e apresentamos nossos problemas.

Portanto, será a partir desses nomes e de suas ideias que começamos a olhar as questões propostas. Outros podem aparecer e oferecer ajuda, mas depois do núcleo formado, as mudanças são mais lentas e pontuais.

Ao tocar nesse tema que parece ser intuitivo, trago a percepção de observar quais são os intelectuais que mais nos influenciam. Saber isso, ter em mente como eles são, onde concordamos, onde não concordamos, onde não temos nenhuma opinião, o que dentro da estrutura de pensamento é mais interessante e importante, auxilia a termos a noção de como pensamos e do que buscamos. Ao conhecermos melhor nossas influências saberemos como estas nos direcionam para as respostas que buscamos e, mediante ao interesse e questões de nível mais elevado, como elementos morais, podemos ir adequando nosso núcleo intelectual.

Depois de conhecer nosso contexto de influências começamos a ter um domínio sobre como ordenar nosso pensamento, como procurar a construção de nossas ideias, o domínio da aplicação do que aprendemos daqueles que nos são influências, até onde está em atuação nosso conjunto de conhecimento tomado desses mestres e onde começa a nossa síntese de tudo. Não é nada imediato, não estaremos sintetizando e criando novas perspectivas de imediato, mas o reconhecimento de onde e para onde vai o que nós temos é importante nesse mistério intelectual. É um dos passos para a formação de nossa própria personalidade: reconhecer o peso externo, as fontes de conhecimento e como a junção de tantos mestres me trouxe até aqui onde estou agora.

Esse é também um exercício de gratidão e humildade. Primeiro porque fazemos sempre referência, ou teremos em consideração aqueles que nos ensinaram algo que hoje aproveitamos, que tomamos posse e fizemos parte de nosso diálogo intelectual. Lembrar de quem nos mostrou algo importante é um gesto que auxilia no nosso segundo fator. Vamos sendo humildes o suficiente para saber que não fazemos nada de novo. No máximo a nossa capacidade é de aplicação em uma situação mais complexa que a pensada inicialmente, mas não é nada comparado a observar, ordenar e explicar uma ideia sobre algo. Essa humildade nos ajuda a ter os pés no chão e pensarmos sempre que há uma quantidade enorme de pessoas que fizeram mais que nós e que quase nada do que fizermos será novidade. Alguém mais capaz já fez isso antes… e melhor.

Abaixo colocarei uma brincadeira de internet que fiz há um ano e que refiz recentemente. É um “mapa de influências”. Encontrei a lembrança dessa montagem e juntei com a ideia que havia rascunhado e possibilitou essa postagem. No geral, há muita gente que se mantém e outros que chegaram. O motivo das mudanças é simples: processo de reflexão de quais são aqueles que, dentro desse espaço de tempo, acabaram tomando mais espaço no meu núcleo intelectual pessoal. Aqueles que saíram foi por serem transitórios, porque ao fazer a primeira lista estava empolgado com eles ou nos assuntos que eles traziam.

Os que restaram, os de maior destaque, são aqueles que independente do período eu sempre vi com importância indescritível no meu contexto de estudos, sejam como referência teórica ou comportamental e moral. Entre as novidades há descobertas, autores que outrora não conhecia, há alguns que cresceram em relevância e ocuparam mais espaço, e há também referências que, não sei por qual motivo, deixei de colocar mesmo sendo extremamente importantes na minha formação. Essa segunda lista é também um mea culpa por não ter colocado pessoas importantes onde elas deveriam estar.

Formadas as referências o resto é trabalho.

Primeiro mapa de fevereiro de 2018.
Segundo mapa de março de 2019.

Faça você também o exercício do mapa de influências e tente compreender o que é mais importante no seu conjunto de conhecimentos. Link: https://labs.iconic.network/mapa/


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Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.