Santa Carona

O outro lado do pêndulo

            Quando estudamos história na escola, e já temos a ideia de como terminou cada fato histórico, julgamos com um certo esnobismo as personagens históricas que estão vivendo aquele período. Achamos a espalhafatosa Maria Antonieta uma boba, pois sabemos que seus brioches custarão sua cabeça; Temos pena de Tiradentes, pois sua revolução não vai a lugar algum; Julgamos que Dom João VI não gosta do Brasil, pois tão logo ele chega sabemos que irá embora em alguns anos; Colocamo-nos a rir de Hitler invadindo a Rússia, pois sabemos no que vai dar.

            O problema é que no calor do momento, vivendo o período histórico, é muito difícil parar e observar o que vai acontecer e agir com prudência. Maria Antonieta nunca imaginou que o povo teria tanta audácia; Tiradentes não esperava ser traído e feito de bode expiatório; Dom João VI não imaginava que veria o terror napoleônico chegar ao fim; Hitler não contava com o inverno e a loucura russa.

            Mas sábio é aquele que se afasta do calor do momento e reflete a partir dos sinais dos tempos. Sábio é aquele que aprende com os erros dos outros. Não me considero um sábio, mas desejo a sabedoria mais do que tudo e às vezes costumo agir sabiamente. Assim, me debrucei sobre a história da humanidade e notei um enorme pêndulo.

            Sempre que a humanidade insiste em um ponto, a próxima geração, cansada dos abusos, vai em direção contrária. A perseguição dos cristãos deu-lhes o poder sobre tudo, o abuso do poder medieval fez os homens se cansarem da Igreja. O cientificismo cansou a humanidade, que caiu no romantismo e sentimentalismo. É como se a humanidade fosse um grande adolescente rebelde que quer ir contra os modismos da geração de seus pais, criando algo para ele, mas na verdade ele só está repetindo seus pais em algo diferente na aparência.

            O filósofo Hegel notou esse processo e formulou a teoria de que esse choque de gerações gera um progresso, ele acreditava que havia um espírito absoluto que conduzia a humanidade em uma tese para uma antítese afim de gerar uma síntese, que por sua vez será uma nova tese e o pêndulo continua até que chegue o estado de perfeição máxima. Admito que o pensamento de Hegel é muito bom, mas tem muitos erros. A metafísica dialética hegeliana é de um requinte altíssimo, mas está repleta de furos.

            Em primeiro lugar, não existe espírito absoluto e até Marx e Feuerbach concordam comigo. Depois, não há essa tal perfeição desejada, e os existencialistas estão do meu lado. A verdade é que o pêndulo não sai do lugar, fica fixo em um ponto, apenas balançando de um lado para o outro, o que dá a impressão de um progresso histórico, mas a verdade é que estamos no mesmo lugar.

            No que se aplica a nossa história, noto que houve um período de extremo conservadorismo. Os padres eram rigoristas, cheios de manuais de Moral e as freiras faziam a garotada piar fino. Não vou ponderar se é certo é errado, mas esse extremo rigor fez a próxima geração se cansar. Saíram da própria Igreja, fartos do radicalismo disciplinar, os artistas, políticos e pensadores que começaram o progressismo. Chegou importada da Europa para que os tupiniquins deglutissem o comunismo, a geração vigente fez uma vigilância militar, mas tanto extremo e abuso fez com que o pensamento marxista tomasse conta do Brasil. Nas casas de formação da Igreja, com todo seu rigorismo, saiu uma leva de padres brandos e libertadores. O rigor da Igreja criou a Teologia da Libertação e o terror dos militares criou a elite pseudo-intelectual de esquerda.

            Continuando o movimento do pêndulo, os abusos de padres que zombam do sagrado, o abuso de intelectuais patéticos que vulgarizam a cultura e o saber, o abuso de políticos que destroem o apreço patriótico geraram essa nova geração conservadora que se manifesta nas redes sociais. O desejo de combate deles tem feito ela aumentar a ponto de um grupinho ser mais do que a metade do Brasil, um número capaz de eleger um presidente. Não foi Olavo de Carvalho ou Pe. Paulo Ricardo quem criaram a juventude conservadora, foi o extremismo dos esquerdistas. Os jovens de corrente e véu que assombram os padres foram criações deles mesmos.

            Não saímos de lugar algum com isso, só estamos tentando chocar a geração passada que, segundo nosso parecer, errou ao fazer um mundo melhor, cabendo a nós, salvadores da pátria, fazer um mundo melhor, a desimagem e dessemelhança da geração passada.

            Mas, na condição de alguém que parou para refletir com a história, notei que têm havido exageros dessa geração: uma mania de taxar tudo de herético, um ódio ao Papa, um “mimimi” insuportável, um desejo assassino para com os criminosos, um trato bruto e cruel com uma moral cretina. Tudo isso me leva a supor que o pêndulo ainda tem forças para continuar o movimento. A próxima geração, quando nós jovens estivermos velhos ou mortos, será novamente uma geração progressista, com ódio a moral e tudo que construímos, pois fomos pais duros e abusivos.

            Mas minha percepção do pêndulo é audaciosa. Não me julgo ápice da evolução dialética, como se julgava Hegel. Antes disso, eu acredito que está mais do que na hora de aprendermos com nossos erros. Eu quero parar o pêndulo!

            Parece um projeto audacioso, como seria a atitude de Maria Antonieta de abraçar o populismo e evitar a revolução; como seria se Tiradentes soubesse que seria traído e montasse um exército; como seria se Dom João VI desistisse de uma vez de sua terra natal e criasse um país novo; como seria se Hitler, de Paris, dissesse “Esses russos são uns neuróticos!” e desse a ordem de bater em retirada, deixando a Rússia encolhida no frio e na fome enquanto se ocupa da Inglaterra, antes que esta receba ajuda do outro lado do Atlântico.

            Acredito que o que move o pêndulo é a força com que ele vai ao extremo, é essa a força que é empregada no sentido contrário, para o orgulho de Newton. Diminuir a força do pêndulo impede que ele chegue ao outro lado. Diminuir o radicalismo conservador impede que haja no futuro um radicalismo progressista.

            Não acredito que se trate de mediocridade. A juventude não suporta a mediocridade! Criar uma amalgama de conservadorismo e liberalismo progressista só irá dar um novo tom ao extremo. Não quero uma política de centro, entre a direita e a esquerda. Não espero que nada morno seja engolido. O que acredito ser a solução, e não é ideia minha, mas de alguém muitíssimo melhor, o filósofo grego Aristóteles, alguém que anuncio e de quem não sou digno de desatar as sandálias. Aristóteles propunha a temperança, isto é, o justo equilíbrio. Um equilíbrio de forças, sem extremos, pararia o pêndulo. Um equilíbrio evitaria que houvesse uma próxima geração antagonista.

            Eu acredito que o pêndulo pode ser contido em uma posição favorável, pois é um pêndulo vivo, apesar de inerte, basta que não haja extremos. Se não houver um moralismo rigorista dos jovens, não haverá uma devassidão em rebeldia; se não houver um pietismo exacerbado, não haverá um laxismo espiritual; se não houver uma política controladora, não haverá uma revolta civil; se não houver uma educação opressiva, não haverá ideias anti-educativas.

            Pode não parecer a um jovem (ou até um adulto com sentimentos e afetos juvenis), mas é possível ter uma postura coerente sem extremos. É possível ter uma fé reta sem rigor farisaico, é possível ter uma segurança civil sem um regime totalitário, é possível ser casto sem ter que vestir uma burca e ser atado como um cão no cio, é possível desfrutar deste belo mundo de nosso Deus sem ser mundano, é possível conversar sobre assuntos triviais sem ser mal. Isso tudo virá com a real adaptação de uma ética das virtudes, isto é, uma ética do bom gosto. Uma moça com bom gosto não vai deixar de usar um shortinho curto porque tem medo de arder no inferno, ela vai deixar de usar porque acha aquilo horroroso; um padre com bom gosto não vai evitar abusos na liturgia porque tem uma rubrica mandando, vai evitar abusos porque ama a Deus; um jovem virtuoso não age bem porque é lei, mas porque é bom.

            Mas como chegar à utopia de uma sociedade virtuosa? Primeiro devemos diminuir os nossos extremos, depois notar os de um e outro e corrigi-los com afabilidade ou bom exemplo.

            Porém, como já afirmei, este pêndulo é vivo, pura inércia não vai pará-lo. É preciso garantir que ele pare perpetuamente de outra forma. Dessa vez, quem ilumina o problema é o pensador britânico G. K. Chesterton. Só um paradoxo deve parar o pêndulo! Um poste branco, parado e estagnado, vai perder a cor. Para mantê-lo como é, é preciso o revolucionário movimento de pintá-lo de branco constantemente.

            O pêndulo só vai parar se exercermos uma força paradoxal, empurrando fortemente dos dois lados. Assim não há movimento, mas não por inércia, mas por uma força tão vivaz como nunca houve. É preciso usar as duas forças dos dois extremos, mas dentro de nós. É preciso deixar com que a Id e o Superego se atraquem.

            Explico, é preciso ter dentro de si todo o rigor da Lei, mas toda a brandura de um liberal, assim você terá uma branda observância, não punitiva, será uma maça de aço almofadada, suave na forma e intransigente na conduta. É preciso ter um padre velho e moralista dentro de si, desses que falam que tudo é pecado e que precisamos de penitência, ao mesmo tempo em que tenha um padre desses de anel de tucum, dizendo que você deve amar os pobres e não se importar com rubricas; só assim você fará penitência sem ser um rapaz de aspecto assustador e deprimente, mas agradável no convívio, capaz de fazer apostolado e ir ao encontro do pobre. É preciso ter dentro de si um cientista positivista racional e frio, que tudo explica de forma prática e ainda um poeta sentimental e romântico que queira chorar e pular; só assim você vai ser um sábio, inteligente, mas humano, que tem coração, mas não é um tonto. É preciso ter um pai que cobra dentro de si e uma mãe que afaga, assim você não será duro demasiado consigo (o que gera ansiedade e depressão), mas também não será um irresponsável.

            Com isso, afirmo que parar o pêndulo não é parar de fazer força, parar o pêndulo implica mais do que nunca fazer força. Parar o pêndulo implica muita força psíquica, implica não só puxar com toda força um lado da corda, mas puxar dos dois lados. Não implica assumir um ou outro papel, mas ter os dois dentro de si e mediá-los. É preciso um esforço hercúleo para parar o pêndulo, muito mais do que a inércia do extremismo que é só uma reação natural. Por isso, não é ser morno, apático, ao contrário, vai ser preciso uma audácia tremenda para criar algo inteiramente novo. É difícil, mas não era um desafio árduo de mudar o mundo que essa geração queria? Pois bem, pare o pêndulo que balança na sua psique e em breve o pêndulo da massa vai parar, pois não somos um espírito absoluto, cada um é um indivíduo único, autopossessivo e autodeterminante. E é nesse ponto que Hegel errou.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.