Santa Carona

Satanás e Lúcifer são o mesmo cara?

            É comum ouvir por aí que houve um belíssimo anjo, o mais alto em importância no Céu, que desejou para si o cargo de Deus, assim, o que era portador da luz, tornou-se o chefe dos demônios. Essa é a opinião de muitos teólogos sobre a questão. Em seu Paraíso Perdido, John Milton canta o glorioso Lúcifer que se tornou Satã. Mas a pergunta que não quer calar é, os dois são o mesmo cara?

            Gosto muito de pensar que não são o mesmo cara. Ao invés de imaginar o pandemônio de Milton, prefiro a construção de Eduardo Spohr, em que os anjos Luzbel e Samael são personagens distintos, sendo Lúcifer o monarca infernal e Satanás a antiga serpente do Éden. Na verdade, literariamente, a construção de Spohr é a que mais me agrada, mas tenho uma ideia bem diferente, sendo ele o que mais se aproxima.

            No antigo testamento temos as figuras de Beemot e Leviatã, dois monstros, um é como um hipopótamo e o outro como um crocodilo, um destrói a terra e o outro apavora nos mares. No Apocalipse, há um enorme dragão cor de fogo, mas também uma fera – e até uma segunda fera – a qual recebe o poder do dragão e depois com ele jaz no lago de fogo. Essas simbologias deixam claro que não há um único monarca, mas poderosos seres em conluio.

            Os demônios são muito numerosos, o Apocalipse conta que o dragão levou a cair a terça parte das estrelas do céu. Um possesso afirmou: “Somos tantos que se fôssemos visíveis, cobriríamos o sol”. Sem dúvidas há um líder, ao qual a Sagrada Escritura se refere no singular. Mas quem é Lúcifer e quem é Satanás? São eles o mesmo? Sobre isso, afirma o célebre exorcista, Pe. Gabriele Amorth:

Bem, há Satanás, que é o número um, e Lúcifer, que é o número dois. São diferentes pelo poder que têm; muitas vezes não aparecem logo imediatamente, mas Satanás está sempre presente. Por isso, quando se lhes pergunta o nome, respondem1.

            É claro, é só a opinião de um experiente exorcista, então trago o reforço de outro célebre exorcista contemporâneo, Pe. José Antônio Fortea:

         Satã: é o mais poderoso, inteligente e belo dos demônios que se rebelaram. Chama-se Satã ou Satanás no Antigo Testamento. Sua raiz primitiva significaria atacar, acusar, ser um adversário, resistir. Satã significaria adversário, inimigo, opositor.
         Diabo: é como o Novo Testamento chama a Satã. Diabo vem do verbo grego diaballo, acusar. As pessoas usam a palavra “diabo” e “demônio” como sinônimos, porém a Bíblia, não. A Bíblia sempre usa essa palavra no singular e se referindo ao mais poderoso deles. A Sagrada Escritura também o chama de o Acusador, o inimigo, o Tentador, o Maligno, o Assassino desde o princípio, o Pai da mentira, o Príncipe desse mundo, a Serpente. […]
         Lúcifer: é um nome extrabíblico que significa estrela do amanhã. A imensa maioria dos textos eclesiásticos usa o nome de Lúcifer como sinônimo do demônio. Entretanto, o padre Gabriele Amorth considera que é o nome próprio do demônio segundo em importância na hierarquia demoníaca. Sou inteiramente da mesma opinião, e o que conhecemos pelos exorcismos nos confirmaria que Lúcifer é alguém distinto de Satã.
        O nome se origina por ter sido um anjo de natureza especialmente privilegiada nos Céus angélicos, antes de se rebelar e se deformar. Alguns traduzem Lúcifer como “o que porta a luz”. Essa tradução é errônea, já que a palavra em latim era luciferarius2.

            Mas se Lúcifer não é bíblico, de onde vem? Bom, há uma diferença entre ser bíblico e ser tirado da Bíblia. Lúcifer não é afirmado na Bíblia, mas a ideia para ele foi tirada do livro da profecia de Isaías (capítulo XIV, versículo 12), pelos Santos Padres. E quando digo que é tirado da Bíblia, mas não e bíblico, é porque este capítulo se refere ao rei da Babilônia que perdeu a sua glória, com a queda do seu reinado, sendo chamado de quem brilhava como divindade e agora perdeu sua majestade.

Como caístes do céu, ó estrela d’alva, filho da aurora!
Como foste atirado à terra, vencedor das nações!

            Apesar dos Padres da Igreja verem nessa queda vergonhosa a queda do mais belo querubim (e não serafim, como explicou Santo Tomás de Aquino), isso não coloca o Sr. Morningstar como um personagem bíblico, apenas como alguém indicado. Na verdade, essa “estrela d’alva” é, como já se disse, o rei da Babilônia, pois tanto a estrela d’alva quanto a aurora são divindades para a cultura babilônica.

            Lúcifer era portanto um grande querubim, mas que caiu junto de Satã e sua corte, mas anexá-lo aos mitos de Prometeu ou algum arquétipo semelhante é demonstrar ignorância, pois, como bem expôs Fortea, ele é a estrela da manhã, “Luzbel”, mas não o portador da luz, que seria “luciferarius”.

            Com a opinião dos dois exorcistas sobre a singularidade de cada uma das personagens ouso afirmar (também com base na opinião deles) que os três maiores demônios são respectivamente Satanás, Lúcifer e Belzebu. Não retirei isso de minha cabeça, mas de um livreto do exorcista Pe. Mauro Duarte e o mesmo foi confirmado na Summa Daemoniaca de Fortea. Por que os exorcistas são dignos de fé? Por que ouviram do próprio demônio. Se dá para confiar no que diz um ser tão astuto e mentirosos? Deus o sabe! Mas penso que sim. A Trindade é um mistério, mas se revelou por amor. O Diabo quer ser Deus, então se finge de mistério e como não ama, não se quer revelar, mas ocultar, porém, Deus pode obrigá-lo a se revelar de vez em quando (como obriga-o a dizer seu nome, o que um demônio nunca faria em condições normais), o que é humilhante para ele e útil para nós.

            Mas porque eu insisto na ideia de um triunvirato no inferno? Depois que li isto, fiquei dando voltas no assunto e notei que faz todo o sentido. O demônio não é todo poderoso, então pode haver uma disputa de poder, demônios mais fortes podem oprimir os menores por status. Lúcifer era grande na hierarquia celeste, então pode sê-lo no inferno. Satanás é o grande revolucionário, então tem grande poder por ter tido grande ódio. E, sobre Belzebu, é dito que é o príncipe dos demônios. Há portanto três demônios que se destacam na hierarquia infernal. TRÊS DEMÔNIOS? Três demônios! Se o demônio quer ser como Deus, vai ter que ser uma trindade. É possível ver esse desejo de ser a trindade antagônica já no horário das trevas, três da manhã, o oposto das três da tarde, horário da misericórdia.

            Portanto, Satanás e Lúcifer não são o mesmo sujeito, podemos nos referir a eles de forma genérica, como temos feito, pois eles se unem, não pelo amor, mas pelo ódio a Deus e a nós, sua criação e seus filhos. Porém, conhecer o inimigo é importante se se deseja combatê-lo. Muitos são os demônios atirados ao Orco, mas cada um foi um ser angélico perfeito na sua espécie que decaiu por querer ser mais do que é, querer ser como Deus. Cada um tem uma forma específica de agir em combate. Eles odeiam a Deus e como não tem poder para derrotá-Lo, atacam a nós para tentar infringir-Lhe dor. Unidos à Trindade do Céu, não temos que temer a trindade do inferno, pois apesar de imitar a Deus e tentar ser um deus antagônico, eles sempre serão meras criaturas, poderosas, mas limitadas.

Referências

1 – AMORTH, Gabriele; TOSATTI, Marco. Memórias de exorcista: a minha luta contra Satanás. Alfragide: ASA, 2011, p. 177.

2 – FORTEA, José Antonio. Summa Daemoniaca: tratado de demonologia e manual de exorcistas. São Paulo: Palavra & Prece, 2010, p. 30-31.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.