Santa Carona

Texto em Linha Reta


“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.”



Muitas vezes nos indignamos com os defeitos dos outros. Falamos em um tom grave de reprovação: “Como fulano teve coragem de fazer isso?”, a maldade dos outros causa em nós um grande horror. Mas será que isso se dá por que realmente nos preocupamos com as pessoas e não queremos vê-las nessas situações? Ou será que há um interesse escuso ou ainda uma motivação egoísta?

Pode parecer estranho achar que é egoismo ou cuidado excessivo da própria imagem -vaidade- essa situação. entretanto não é. Frequentemente nos convencermos de que somos “bons”, “essencialmente bons” então quando vemos a miséria de outrem logo fazemos o raciocínio, “Como você não é bom, como eu?”.

Fernando Pessoa, pelo heterônimo de Álvaro de Campos, no seu “Poema em Linha Recta”, revolta-se contra essas pessoas que na fala dele “Nunca foi senão príncipe”. E a revolta do nosso ilustre português é legítima. Ora somos todos miseráveis, que pela bondade unica e exclusiva de Deus e pelos nossos atos deliberados, conseguimos vez ou outra acertar. Se dependêssemos só de nós seríamos “grotesco, mesquinho, submisso e arrogante”. 

Noutro ponto, Álvaro de Campos aponta claramente essa pessoa vaidosa, “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Muitas vezes queremos passar a imagem de que somos perfeitos, melhores oradores, mais inteligentes, mais instruídos, mais santos. “Arre, estou farto de semideuses!”, não aguento mais esses santos! Quero pessoas sinceras, verdadeira. Podem ser os piores, mas se são verdadeiros, já são melhores do que vivem de suas mentiras para alimentar o próprio ego.

“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…”



Nossa vida é marcada pelas situações que nos acontecem, ora são boas, ora são ruins, tragédias e alegrias, entretanto, temos que seguir em frente. Seguir em frente não é sinônimo de esquecer-se do que foi feito, muito menos de se martirizar pelo passado. o passado é passado, todavia está aí para nos ensinar. Aproveitando as coisas boas e não cair novamente nos erro.

Essa mudança de comportamento pode gerar em muitos um tom de superioridade. Se acham bons e melhores do que os outros que ainda não encontraram a verdade. Entretanto são piores, quem tem um defronte com a verdade e começa a viver de mentiras, ainda mais sobre si, é um farsante, um malicioso.

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”

A pessoa realmente grande não quer se mostrar, afinal ela já é grande. Temos que travar uma cruzada de ombridade no mundo. Como cidadãos de bem, temos a obrigação de nos mostrar como somos e lutar o tempo todo, desgastando-se, acabando-se, morrendo, pelos outros e por sermos melhores.

A Igreja não se engana, queres ser perfeito? Segue esse antigo conselho: “Faze o bem e evita o mal!”.Quem segue essa regra, tem muito trabalho na vida, não tem nem tempo de se preocupar com a auto imagem.

Para finalizar, deixarei em caixa alta, VOCÊ NÃO PRECISA PARECER BOM, MAS SER BOM! VAI GASTAR SUA VIDA PELOS OUTROS, SEJA HONRADO POR SE ESQUECER DE SI.

segue o texto de Álvaro de Campos:

POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  – 312.

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!