Santa Carona

Exortação ao recolhimento

“A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado. Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi. Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada.”
Pe. Antonio Vieira

Hoje, sexta-feira da Paixão, temos diante de nós, independente de onde estamos ou em que época estamos, o Crucificado. Trazemos na memória, com uma riqueza de detalhes, as lembranças do dia, aparentemente, mais triste do mundo. Vemos crucificado um Deus. Ora, quem devia estar sendo crucificado é quem o crucifica, era nossa condenação. Mas o personagem sagrado disse acertadamente: “É preciso que um morra no lugar de muitos, para que não haja uma revolta.” O dia em que Deus nos comprou de uma vez por todas. O dia em que, o mais importante, se sacrifica pelo menos importante. O dia em que o Criador levanta a criatura e a tira dessa condição, dá-lhe uma túnica nova e bota-lhe um anel no dedo. Com voz forte Deus pronuncia: “Tu és meu filho, hoje te gerei!”

O luto que nos vestimos e o jejum que praticamos hoje não é porque nos lembramos que temos um Deus morto, mas porque nos lembramos que nós, com nossos pecados crucificamos a Deus. A imagem dos nossos pecados, como diz o Padre Antônio Vieira, diante dessa realidade, nos faz perder o chão. Saber que minha mesquinhez, meu orgulho, minha falta de amor matou a Deus, mata-nos interiormente. Sobre essa resolução, a Igreja nos incentiva cada dia mais ir morrendo, pelas mortificações, para ajudar Nosso Senhor a carregar a Cruz.

Quem disse que somos grandes? Quem diante de um Deus crucificado tem a coragem de se dizer valoroso? Acaso toda a glória e fama que possuímos pertencente a nós? Não temos glória nenhuma. Carregamos, enquanto vivemos, o débito da vida com Deus. Só temos vida porque Deus morreu para que a tivéssemos. Eu desconheço quem se glorie de ser devedor e é isso que somos.

Cristo crucificado, o Onipotente se fez indefeso. Cristo que podia contar a cada um dos verdugos os seus pecados, fica calado. O injustiçado não exige justiça, apenas olha a cada um. Sobre nós hoje recai esse olhar de Cristo. Não um olhar de reprovação e ira, mas um olhar de amor e misericórdia. Querem medir a Misericórdia de Deus? Meça a sua dolorosa Paixão e teremos o resultado: é infinita. Mas querem também saber da Justiça deste mesmo Cristo: imagine como um injustiçado anseia por justiça, está aí, Ele também é terrivelmente justo.

Contemplar a cruz e ver como nos vendemos ao pecado deveria causar em nós vergonha. Humanamente é doloroso ver um inocente pagar pelos nossos erros. Agora ver um Deus pagar pelos meus pecados para me dar a vida, não há adjetivo que caracterize.

O dia de hoje devemos dedicar ao silêncio, ao jejum e ao exame de nossa consciência. Aproveitar para nos lembrar das ocasiões que nos vestimos de soldados, de Pilatos e de Herodes, e fizemos com que Cristo sofresse. Sentir a dor desses dias, fará de nossa Páscoa realmente uma data vitoriosa, só depois da angústia e da dor da paixão é que compreendemos como a ressurreição é gloriosa. Sem isso, Páscoa é só mais um domingo em que por diferencial comemos chocolates.

Quando nos lembramos da fala do salmista: “Se a condenação me viesse de um inimigo eu não estranharia, mas eras tu, meu amigo que me entretinha em deliciosos colóquios.” Observamos como nossos pecados doem em Cristo. Quanto mais perto d’Ele estamos, mais devemos lutar para não cometer pecado. Mais Ele espera que O ajudemos a suportar o peso da Cruz. Devemos ser um Simão de Cirene e não os verdugos.

Este é um dia único, o único dia em que celebramos a entrega de um Deus à morte. O cristianismo é único. Não há religião que Deus faça tanto pelos seus fiéis. O nosso Deus encerra o pensamento tirano do mundo. Só por sua atitude todos já nascemos favoráveis à liberdade.

Afim de proporcionar esse silêncio e esse recolhimento, já encerro essa breve reflexão exortando, fiquemos ao lado de Jesus. Passemos essas horas de dores e morte com Jesus, feliz daqueles a quem Jesus olhar e disser: “Esta é minha mãe, meu irmão e minha irmã.”

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!