Santa Carona

Sobre o Descobrimento e Primeira Santa Missa no Brasil

Senhor

Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que – para o bem contar e falar -, o saiba fazer pior que todos.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu….

Nesta semana, no dia 22, comemoramos a descoberta do Brasil. Um dia importantíssimo, tanto para Portugueses, quanto para indígenas e para nós brasileiros é de maior importância ainda. Entretanto muito pouco se foi falado sobre esse dia. Poucas pessoas sabem desta data e pouquíssimas se lembram de comemorar. Ora, o descanso com nossa própria história é o açoite que sofremos hoje.

Quarta-feira, 22 de abril: Neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele: e de terra chá, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome: O MONTE PASCOAL e à terra: a TERRA DA VERA CRUZ….

Na própria segunda-feira, enquanto me dirigia de um lugar à outro no carro, tive a infelicidade de escutar dois comentaristas idiotas estimulando os ouvintes a responderem a seguinte questão: “Se os portugueses chegassem, você trocaria o Brasil pelo que?” Os dois imbecis já responderam de pronto, um disse que trocaria por um pão com ovo. O outro não me lembro, contudo a questão se desenvolveu para que tipo de pão com ovo seria, gema mole ou dura?

Isso é absurdo, os instrumentos de mídia que deveriam ajudar na divulgação da informação e da história, fazem o contrário, desinformam e mentem sobre a história. Ninguém se orgulha da bela história do Brasil. Este acontecimento é prova disso.

Por isso, devemos estudar, ler e reler nossa história, descobrir quem são nossos heróis e quais seus grandes feitos. O Brasil é uma terra incrível pelas belezas naturais e pelos personagens. Um país de dimensões continentais que consegue a epopeia de manter seu território, mesmo com revoltas, guerras e ameaças da Inglaterra. Um país que na época era o mais respeitado das Américas, e o que sabemos dessa época? Que Dom Pedro I traia sua esposa e que havia escravos no Brasil. Indivíduos maliciosos lançam aos quatro ventos essas afirmações.

Sábado, 25 de abril: Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas as naus dentro; e ancoraram em cinco ou seis braças – ancoragem Jentro tão grande, tão formosa e tão segura que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso,
que eles levaram os braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. -oão Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu vivere maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.

Na narração de Caminha, percebemos a primeira impressão sobre o Brasil,
“tão grande, tão formosa e tão segura que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus”, acharam a nova terra ideal. A relação com os indígenas é bastante curiosa e prova que ao contrário do que dizem não ouve uma imposição de cultura. Vestem-se os índios, dão lhe objetos próprios dos portugueses, onde é que alguém que quer rebaixar o outro, o trata como igual? E ainda manda descobrir como vivem. Seus costumes e etc.


Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhe que se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornamo-nos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá o houvesse. Não cuidaram de lhe tirar coisa alguma, antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez
tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu, à vista de nós, àquele que da primeira vez o agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo.

Agora passaremos ao dias mais importante, o dia 26 de Abril. Após conhecerem o local e identificarem que não havia grandes perigos e por ocasião da Páscoa, mandou-se celebrar a santa Missa, como que consagrando pelas mãos do Frei Henrique junto com a hóstia a Terra de Santa Cruz. Está é uma Terra Santa.

Domingo, 26 de abril: Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.

Na narrativa fica expressa a alegria e atenção que este primeiro ato publico foi realizado. Os da nau atentos ao sermão do frei e os nativos curiosos e admirados com o ritual do homem branco. Uma terra marcada pela Eucaristia, pela união e pelo respeito, essa é a Terra de Vera Cruz.

Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal. Antes lhe davam cabaças de água, e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão; e viemo-nos às naus, a comer, tangendo gaitas e trombetas. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.

Prefiro colocar as citações a narrar tudo isso. Por mais que me esforçasse não conseguiria fazer com tamanha beleza, erudição e zelo. calo eu e Pero Vaz ganha voz nesta coluna, na verdade o Brasil autêntico ganha voz. Já encerro, fazendo votos para que continue a surgir brasileiros verdadeiros, interessados em sua história e dispostos a mudar o rótulo vergonhoso que colocaram em nossa amada Pátria, a nossa Terra De Santa Cruz.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, com em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tome a Jorge de Osório, meu genro – o que d’ Ela receberei em muita merçê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!