Santa Carona

O olhar em Deus


Dois rascunhos (e um apêndice) sobre o olhar e a atenção.


Interessante a possibilidade de poder contemplar a Deus, de estar próximo Dele. Com contrição, com a abertura da alma, com sincero amor, desde o profeta que Deus usou para guiar o povo até o pecador público podem se aproximar do Senhor.

Simeão viu a salvação do mundo. No ato da apresentação do Senhor no templo, lá estava um justo, acompanhado pelo Espírito, que teria a benção do descanso da carne ao contemplar o Senhor dos Senhores. Viu o que traria ao mundo a Salvação, alertou a Mãe do peso que estaria em suas costas, das dores do mundo e dos corações. O justo contemplou aquilo que aguardou a vida toda.

Mas o que dizer do pecador? Aquele que passou toda a vida no erro poderia também ver o Senhor? Em sua glória qualquer um O identificaria, mas quantos veriam a justiça e a realeza no condenado ao suplício dos desonrados?

Foi justamente um ladrão, que acompanho lado a lado o Cristo, certo que sem opção, mas com atenção, e nisso, ao contemplar a presença do Filho do Homem, deixou que a Verdade negada pelos grandes penetrasse em seu coração; cada reação do Homem Deus, vista com atenção, levou o criminoso à metanóia, que culminaria no ato de fé que marca sua visão de Deus: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (Lucas 23,42). Mesmo sabendo o que era, não permitiu que igual a si fosse tratado o Cristo; viu sua miséria refletida na grandeza do homem na Cruz. Reconheceu o Senhor, mesmo com sua vida pregressa. Aceitou o Senhor e seu Reino. Teve a graça de ter uma visão ainda mais espetacular que o justo. Este viu o salvador do Mundo, o pecador viu o salvador Pessoal.

Anápolis, 07 de maio de 2018.


“O desconhecimento, o embrutecimento, o passar cego pela vida ou pelas coisas, ou passar alienado, são do diabo. O samaritano não foi apenas bom, mas também atento; soube ver”, escreve o monge Nicolae Steinhardt.

Um trecho significativo do Diário da Felicidade que pode ser levado ao que está esboçado acima sobre o Cristo: estar atento quando Ele vier, saber identificar o advento d Deus; isso e como o próprio Jesus ensinou, pois muitos não veem como Ele se apresenta, e deixando passar a oportunidade, não conseguem ver. Escutarão depois que por muitas vezes o Cristo esteve entre eles, mas não foi visto.

Outro ponto é a contemplação da vida plena. Observar tudo que temos na realidade, direcionar nossa atenção para coisas que valha a pena, fazer um recorte que possibilite nossa visão e nos tirar do mundo fechado em nós.
Ver é ir além, contemplar partes de nós e do outro. Quando olhamos o outro ele se mostra por inteiro. Parados, ele é visto, nos tornarmos presença sem nos vermos. Mas ele está lá, completo. E podemos, com isso, fazer dele espelho, reconhecermos nele o que há em nós. E com isso deixar o invólucro de nossa pequenez…

Ver é confrontar o que se pensa com a realidade que está projetada fora do nosso esquema mental. É estar disposto a prestar atenção naquilo que nos é oferecido gratuitamente. Desse confronto, dá própria natureza dialética que é proposto por ele, tudo pode mudar: uma nova percepção ou confirmação. Mas é preciso ver.

Sem a iniciativa de olhar, de abrir-se, de permitir que algo externo confronte, nada pode mudar. O isolamento é ferramenta de impossibilidade de diálogo. Quando perpétuo, estar isolado é morte em vida. Quando não conseguimos ver nada, quando nos fazemos cegos pelo egoísmo ou orgulho, a vida passa, não vivemos, e isso é morte… morte de nossa biografia. A nossa história pode ser cercada por conquistas, mas não há uma pessoa nela, seria como o fim de um cálculo feito por um computador operado por qualquer algoritmo. Aleatório…

Anápolis, 21 de agosto de 2018.


Todas essas questões melhoraram em entendimento ao ler o seguinte trecho na autora francesa Simone Weil. Descreveu a filósofa e mística (que era quase cristã) assim:

“A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade. Poucos são dados a descobrir que as coisas e os seres existem.”

O exercício de atenção, de ceder tempo e esforço em escutar alguém, em observar suas peculiaridades e características, de procurar entender seus detalhes é esforçar para ver aquilo que ninguém mais vê.

É conseguir ver o Senhor nos pequeninos, é entender o que poucos entendem. Mas para isso é necessário atenção. Sem o menor retorno a si antes de partir ao outro, de interiorizar aquilo que está de frente, pouco se consegue. Ao ver, ao estar atento, devemos também olhara para o nosso interior e despir aquilo que vimos.

Alguns processos assim são fáceis de realizar, saem rápido e certeiros. Outros não são tomados ao calor do momento. Para qualquer forma de atenção e de visão das coisas como nos são apresentadas e como são, é preciso estar sensível ao que a própria realidade nos oferece.

Há tensões que não são resolvidas senão com a aceitação própria da realidade, na qual a própria confissão de impotência nos revela tudo que precisamos. Um olhar de contemplação, a escuta de palavras que cabem ou não na realidade exposta são o suficiente. Mas desde que o olhar seja atento.

Anápolis, 16 de abril de 2019.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.